Mundo

É raro, mas há finais felizes. O que acontece a quem viaja clandestinamente num trem de aterragem

No domingo, um homem caiu do céu em Clapham, no sul de Londres. Em 2004, um homem que seguia num avião da Air Luxor, a partir da Tunísia, caiu num pomar na Charneca da Caparica.

A chuva cai do céu, os corpos dos homens não. Ou não deviam cair, mas este fenómeno, o da esperança clandestina, não é assim tão raro conhecer-se. Este domingo, por exemplo, um homem refugiou-se no compartimento do trem de aterragem de um avião da Kenya Airways que fazia a ligação Nairobi-Londres. Aguentando o que se imagina um inferno gelado e solitário, acabou por cair num jardim em Clapham, no sul da capital britânica. Esta quarta-feira avançou-se a hipótese de se tratar de um trabalhador do Aeroporto de Nairobi.

É quase insuportável não formar cenários e magicar ideias sobre o que levará aquelas pessoas a tentarem uma tão ousada ventura. Desespero. Esperança. Quem sabe. Não é raro ler sobre mortes em compartimentos de trens de aterragem ou quedas das nuvens. É ali, naquele lugar que está associado a uma aterragem em segurança em solo hospedeiro, que arriscam tudo, que metem as fichas todas. O tudo ou nada nos trens de aterragem.

Há pouco mais de 15 anos, terreno português também foi salpicado por esse estilo de ser tragédia. Um pomar, com morada na Charneca da Caparica, que pede água e não um corpo caído do céu, conheceu o peso da vida e morte de um homem que voava desde a Tunísia. “O corpo, que aparenta ter cerca de 25/30 anos, ficou muito maltratado ao embater no solo”, descrevia uma fonte policial ao “Público”. Seria um projeto de imigrante clandestino, munido de muita roupa e despido de documentos. Suspeitava-se que teria caído quando o avião da Air Luxor baixou o trem de aterragem. Mas não foi assim. Doze dias depois, o “Correio da Manhã dava conta de que o homem tinha sido afinal “esmagado no trem de aterragem”. O corpo do homem caiu no terreno da casa de Fernando Sequeira, de 85 anos, que deu conta do aparato quando ia regar as flores perto da horta.

Como é viajar num trem de aterragem?

O risco de esmagamento é, como já vimos, um deles. O trem de aterragem recolhe após o avião descolar e volta a misturar-se com a brisa do céu quando o destino se aproxima, abrindo o compartimento, adicionando na lista o risco de queda.

Mas há mais, como conta este artigo da BBC: o perigo de congelamento, já que a temperatura exterior durante o voo pode atingir os -60º, convocando a hipotermia. A perda de audição, um zumbido teimoso e o acumular de ácidos nos fluídos corporais (acidose) também são uma ameaça.

A viagem normal de um voo ocorre nos 10, 11 mil metros, mas os problemas graves começam quando a barreira dos 5000 é atingida. Instala-se a hipóxia, que denuncia a diminuição da concentração de oxigénio no sangue e nos tecidos, levando a fraqueza, tremores, tonturas e problemas de visão. Com o aproximar dos 7000 metros, o passageiro clandestino, diz o mesmo artigo da BBC, luta para manter-se consciente. Os pulmões vão revelando as suas falências e ruínas.

A BBC conta ainda cinco histórias com um improvável final feliz. Foram assim as viagens de Armando Ramirez, em 1969, entre Havana e Madrid; Fidel Maruhi, em 2000, do Taiti para Los Angeles; Victor Molina, em 2002, de Cuba para Montreal; Yahya Abdi, de 15 anos, que sobreviveu a uma viagem entre San Jose, Califórnia, e Maui, no Hawaii, para reencontrar-se com a mãe (o pai dissera-lhe que estava morta); e, finalmente, Pardeep Saini, em 1996, de Delhi, Índia, para Londres.

“Alguns minutos depois da descolagem, eu fiquei inconsciente”, recordou ao “Daily Mirror” Pardeep Saini, muitos anos depois. “A memória seguinte que tenho é a de estar num centro de detenção no Reino Unido, onde me disseram que o meu irmão tinha morrido”. O irmão, que tinha o mesmo arrojo na intenção, “provavelmente morreu antes de as primeiras bebidas serem servidas”