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Conflitos entre grupos armados já causaram pelo menos 10 mortos na RCA

Philimon Bulawayo

Grupos armados abandonam o Governo.

O Presidente da República Centro-Africana (RCA), Faustin Touadéra, afirmou esta quinta-feira que cerca de 10 pessoas morreram nos confrontos entre dois grupos armados signatários do acordo de paz, que ocorreram em Birão, no nordeste do país.

"Lamentamos e condenamos a situação, que hoje em dia parece que se está a transformar num conflito comunitário. Em termos de balanço, temos cerca de uma dezena de mortes em ambos os lados das comunidades", disse Faustin Touadéra, que esteve hoje em Paris com o Presidente francês, Emmanuel Macron.

Os confrontos entre os grupos armados do Movimento dos Libertadores Centro-Africanos para a Justiça (MLCJ) e da Frente Popular para a Renovação na República Centro-Africana (FPRC) começaram no domingo em Birão, no extremo nordeste da RCA.

O presidente da RCA salientou que a Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização na República Centro-Africana (MINUSCA) enviou forças para o local de modo a evitar que "outros atos de violência sejam cometidos ao nível da população civil".

"Existem ações de mediação de dignitários e de autoridades locais, de modo a aliviar a tensão", explicou.

O representante especial das Nações Unidas na RCA também já condenou os confrontos entre dois grupos armados, considerando que são uma "violação" do acordo de paz, assinado em fevereiro de 2019.

"A Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização na República Centro-Africana condena veementemente os violentos confrontos em Birão entre dois signatários do Acordo de Paz, o MLCJ e o FPRC, que causaram mortos e vários feridos", referiu Mankeur Ndiaye.

Grupos abandonam o Governo

Também hoje, o líder de um influente grupo armado na RCA anunciou a sua renúncia ao cargo que ocupava no Governo, na sequência do acordo de assinado no início de fevereiro.

Sidiki Abass, que ingressou no Governo em 6 de março, juntamente com outros representantes dos 14 grupos armados, apontou como as causas para a sua demissão as "funções imprecisas" e a "falta de consulta" do chefe de Governo, o primeiro-ministro Firmin Ngrebada.

Esta saída do líder do grupo 3R (Regresso, Reclamação, Reconciliação) ocorre alguns dias depois de o chefe do Movimento Patriótico para a República Centro-Africana (MPC), Mahamat Al Khatim, também ter anunciado a sua demissão.

Os dois eram conselheiros militares, encarregados das Unidades Especiais de Segurança Conjuntas nas regiões de influência de seus respetivos grupos.

A criação dessas brigadas, reunindo membros das forças da RCA e de grupos armados para garantir a segurança do território, provou ser uma das questões mais complexas da implementação do acordo de paz assinado em Cartum.

Para o Governo, os combatentes rebeldes devem primeiro participar do programa de desarmamento e desmobilização lançado em dezembro de 2018 antes de ingressar nessas unidades mistas.

Alguns líderes dos grupos armados não concordam e exigem que os seus homens sejam isolados após o desarmamento enquanto aguardam a sua integração nas brigadas.

Da queda de François Bozizé até à situação atual

A RCA caiu no caos e na violência em 2013, depois do derrube do ex-Presidente François Bozizé por grupos armados juntos na Séléka, o que suscitou a oposição de outras milícias, agrupadas sob a designação anti-Balaka.

O Governo centro-africano controla cerca de um quinto do território. O resto é dividido por mais de 15 milícias que procuram obter dinheiro através de raptos, extorsão, bloqueio de vias de comunicação, recursos minerais (diamantes e ouro, entre outros), roubo de gado e abate de elefantes para venda de marfim.

Um acordo de paz foi assinado em Cartum, capital do Sudão, no início de fevereiro pelo Governo e por 14 grupos armados. Um mês mais tarde, as partes entenderam-se sobre um governo inclusivo, no âmbito do processo de paz.

Portugal está presente na RCA desde o início de 2017, no quadro da MINUSCA, cujo 2.º comandante é o major-general Marcos Serronha, onde agora tem a 5.ª Força Nacional Destacada (FND) e militares na Missão Europeia de Treino Militar-República Centro-Africana, cujo 2.º comandante é o coronel Hilário Peixeiro.

A 5.ª FND, que tem a função de Força de Reação Rápida, integra 180 militares do Exército, na sua maioria elementos dos Comandos (22 oficiais, 44 sargentos e 114 praças, das quais nove são mulheres), e três da Força Aérea.

Lusa

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