Mundo

Cem mil homens foram assediados sexualmente nas Forças Armadas norte-americanas

“É o inferno e não há forma de escapar”.

Paul Lloyd fica acordado pela madrugada a limpar a casa de banho para fugir aos pesadelos que o tentam apanhar todas noites quando se deita na cama e fecha os olhos. Os flashbacks começam de imediato: o chuveiro, os corpos nus, a violação. Paul Lloyd tem 30 anos e foi militar do exército norte-americano. Foi violado. “Pequenas coisas podem acontecer quando estás de costas num chuveiro. É o inferno e não há forma de escapar”, contou. Este é um dos seis retratos publicados pelo “New York Times”, que estão longe de serem exceções. Estima-se que nos últimos anos cerca de 100 mil homens tenham sido sexualmente assediados nas Forças Armadas dos Estados Unidos.

Foi em 2007 que aconteceu. Paul estava na recruta, tinha 17 anos. Numa noite, quando já todos os outros se haviam deitado, foi tomar duche e agarram-no. Foi espancado e violado. No dia seguinte teve de ser assistido no hospital, tinha uma hemorragia interna e o recto rasgado. Os médicos perguntaram-lhe o que tinha acontecido, mas não respondeu. E durante cinco anos nunca falou do assunto. “Sentia que não podia dizer nada. Iria parecer um completo falhado para a minha família, para o meu pelotão, para mim”, explicou.

Continuou a recruta mas, no Natal, escondeu-se em casa da irmã. Foi forçado a regressar. Acabou por ser dispensado por mau comportamento. Voltou para casa e continuou a não falar sobre o que aconteceu. Deixou de ir à missa como costumava fazer, não conseguia manter um emprego, tornou-se alcoólico. “A minha família viu-me destruído durante muito tempo. Quando finalmente lhes contei que tinha sido violado, disseram-me que agora tudo fazia sentido.”

De acordo com o jornal norte-americano “The New York Times” são cada vez mais os casos conhecidos de homens sexualmente assediados nas Forças Armadas, cerca de dez mil por ano, aponta a publicação, citando estatísticas do Pentágono. As vítimas mais frequentes são os mais novos, aqueles que estão nas patentes mais baixas. Há muitos casos entre os recrutas. Uma parte acabou expulsa ou saiu voluntariamente.

Embora a taxa de mulheres sexualmente assediadas nas Forças Armadas seja sete vezes superior à dos homens, há muitos mais militares do sexo masculino, ou seja, o número efetivo de casos acaba por ser muito próximo.

“Toda a gente pensava que era um problema que atingia apenas as mulheres, foi surpreendente para as chefias perceber que não”, disse ao jornal Nathan W. Galbreath, um dos responsáveis pelo departamento governamental para a Prevenção e Resposta ao Assédio Sexual.

Depois fez tudo o que podia fazer: tomar um banho e dormir

Jack Williams tem 71 anos e é outro dos homens que deu testemunho do que passou. Foi em 1966, tinha 18 anos e planeava seguir carreira na Força Aérea. Um sargento aproximou-se dele e estrangulou-o até desmaiar. Em seguida, deitou-o na secretária e violou-o. O mesmo homem voltou a violar uma vez mais Williams.

“Se denunciares isto, nunca vão acreditar”, disseram-lhe quando tentou contar o que lhe acontecera. Manteve-se calado. Depois dos ataques, fez aquilo que podia fazer: tomou banho e foi dormir. Completou a recruta e só depois apresentou queixa às autoridades. “Nunca nada foi feito”, assegurou Jack Williams. “Eu tinha um futuro, queria servir o meu país e era bom no que fazia. Tudo isso me foi tirado.”

O caso de Bill Minnix, hoje com 64 anos, foi diferente. Tinha na altura 17 anos e acabara de se alistar na Força Aérea quando militares mais velhos convidaram os recrutas para um encontro num resort fora da base. Chamaram-lhe uma espécie de ritual de iniciação. “No começo, estávamos divertidos mas nervosos, até que houve silêncio. Estava morto de medo. Obrigaram-nos a participar em atos sexuais que nenhum de nós queria. Foi horrível voltar à base no dia seguinte e encarar aquelas pessoas”, recordou.

Tal como os restantes, não falou sobre o assunto durante anos. De volta à vida civil, casou-se duas vezes e divorciou-se, tinha dificuldade em manter-se empregado e bebida - bebia muito.

Nos braços e no rosto de Billy Joe Capshaw, de 56 anos, ainda estão as cicatrizes das agressões. O tempo que passou no Exército, diz agora, foram os piores da sua vida. Usa sempre um boné para que não o olhem diretamente e não lhe façam perguntas. Foi sedado para ser violado, espancado com uma barra de metal, amarrado com cordas. Tudo isto lhe foi feito pelo colega de camarata, que o trancou mais que uma vez no quarto. “Controlava-me completamente. Não me deixava sair, batia-me e violava-me. Mas também, por vezes, jogávamos xadrez, comprava-me livros e cuidava das minhas cicatrizes. Não sei explicar nada disto”, disse.

O colega de casa de Capshaw chamava-se Jeffrey Dahmer e, em 1991, foi detido sob suspeita da violação e homicídio de 17 homens - alguns foram desmembrados e comidos. Mesmo assim, Capshaw nunca contou o que lhe fizeram. “Não podia.”

Numa das primeiras noites a bordo do navio, um grupo de marinheiros convidou Heath Phillips, na altura com 17 anos (hoje com 48) para sair à noite. Ele aceitou. Lembra-se de pouco, sabe que acordou de manhã deitado no chão de um quarto de hotel com um homem a ejacular na sua cara e com outros a tirarem-lhe as calças. Conseguiu libertar-se e trancar-se na casa de banho.
De regresso ao navio, tentou contar tudo o que acontecera naquela noite. Disseram-lhe que era mentira e ignoraram-no. Nos meses que se seguiram, Phillips dormiu no mesmo quarto dos homens que o tentaram agredir. E, nos meses seguintes, foi violado e espancado por várias vezes. Phillips continuou a denunciar os episódios aos superiores. “Sempre me acusaram de mentir, diziam-me que não tinha provas e que não queriam ter de lidar com aquela situação.” Fugiu da Marinha, foram buscá-lo. Voltou a fugir, voltaram a ir buscá-lo. Acabou por ser expulso após várias tentativas de fuga.

Ethan Hanson é o mais novo de todas as vítimas que aceitaram prestar depoimentos ao “New York Times”. Há cinco anos foi violado no duche. Pertencia aos Marines, uma força especial da Marinha norte-americana. Aconteceu depois de correr uma pista de obstáculos, quando os 60 recrutas estavam no banho. Um dos instrutores apareceu e obrigou-os a alinharem-se todos, com o pénis encostado ao rabo dos colegas. Primeiro numa parede, depois noutra. Novamente na primeira parede, depois noutra. Durou mais de uma hora.

O caso foi reportado pelos recrutas e o instrutor em causa foi alvo de investigação.

“Quando há vapores, água quente, quando alguma coisa faz a minha pele ficar húmida, tenho vontade de vomitar”, descreveu. Hoje quando toma banho, senta-se na banheira que enche com pouco mais de cinco centímetros de água e com um copo de plástico molha-se. Ethan Hanson tem 29 anos e evita tomar duche porque não consegue.

  • Leonel Pontes prefere Sporting a vencer, mesmo sem convencer
    2:18