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Cantor gospel assume-se homossexual e testa tolerância da sociedade

Olivier Muhizi

Albert Nabonibo, famoso no Ruanda, revelou que era homessexual numa entrevista a um canal religioso.

Os amigos de Albert Nabonibo, um famoso cantor gospel no Ruanda que assumiu recentemente ser homossexual, não querem ver os seus nomes associados ao artista, uns por vergonha, outros por angústia porque as respetivas famílias sabem da amizade.

Nabonibo chocou muitos ruandeses em agosto último quando revelou numa entrevista a um canal religioso no Youtube que era homossexual, num país onde a assunção pública da homossexualidade é desconhecida.

Apesar da retórica 'anti-gay' não ser neste país da África central tão presente quanto noutros locais da África subsaariana, a homossexualidade é largamente desprezada e as pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais ou transgénero) mantêm perfis bastante discretos.

Nabonibo afirmou em declarações à agência Associated Press que assumiu a sua orientação de género porque quer viver normalmente. Porém, ao invés, a reação dos familiares, amigos e mesmo desconhecidos tem sido "horrível", segundo o próprio, sublinhando a intolerância sentida em muitas partes do continente africano.

"Mas não há como voltar atrás, eu tenho que viver a minha vida", afirmou Nabonibo.

"É tão triste sentir que pessoas que conheces abusam de ti".

Nabonibo tem 35 anos e é contabilista. Quando se assumiu gay publicamente foi ostracizado num emprego, temeu que pudesse ser despedido e os amigos afastaram-se dele. Mesmo em casa, a notícia chocou vários familiares, ainda que alguns lhe tenham demonstrado tolerância, disse à AP.

Olivier Muhizi

O código penal do Ruanda não proscreve explicitamente a homossexualidade, mas o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo é proibido, e a sociedade ruandesa obriga muitos homossexuais a assumir um estilo de vida discreto para evitar o julgamento público. Nabonibo afirmou que se viu forçado a assumir a sua orientação de género porque já não conseguia "viver em negação".

"Há uma grande lista [de gays] entre nós, incluindo padres e crentes praticantes", afirmou. "Isto levou-se a falar", afirmou.

William Ntwali, um ativista dos direitos humanos ruandês, afirmou à AP que a sociedade no Ruanda ainda estigmatiza os gays, ainda que estejam protegidos por lei.

"Se és gay, os membros da tua comunidade ostracizam-te", disse.

"As pessoas pensam que não és normal, olham para isso como uma abominação".

Alguns dos melhores amigos de Nabonibo que falaram com a AP afirmaram estar embaraçados apenas por falar nele e pediram o anonimato.

"Isto é de doidos. Não percebo porque é que ele pensa que é normal", disse um deles.

Outro, um homem que frequenta a mesma igreja que Nabonibo, afirmou estar a viver em "agonia", porque toda a sua família sabe que ele costumava estar com Nabonibo. Em declarações à AP, disse que bloqueou o número telefónico de Nabonibo, porque quer "ficar seguro".

Nas redes sociais, a reação tem sido semelhante, com muitos ruandeses a questionarem as intenções de Nabonibo e outros a condenarem-no.

No Twitter, alguém perguntou:

"Como pode um cantor gospel ser gay?".

Em contrapartida, um membro do Governo ruandês saiu em defesa de Nabonibo, afirmando que a lei o protege e apelando a que o cantor continue a desenvolver a sua arte nos serviços religiosos.

"Todos os ruandeses têm direitos e liberdades iguais quando nascem", afirmou Olivier Nduhungirehe, ministro dos Negócios Estrangeiros ruandês no Twitter.

De acordo com a organização Human Rights Watch, 32 países africanos deixaram de criminalizar a homossexualidade nos respetivos códigos penais, muitos deles ainda heranças do período colonial. Mas outros introduziram alterações legislativas em sentido contrário ou reforçaram leis restritivas da liberdade sexual, como o Chade, o Quénia ou o Uganda.

Lusa