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Putin considera "inadmissível" revisão dos Acordos de Minsk sobre a Ucrânia

ALEXANDER ZEMLIANICHENKO/POOL

"Agora repetem-se cada vez mais as teses de que os Acordos de Minsk devem ser revistos."

O Presidente russo considerou esta quarta-feira "inadmissível" uma eventual revisão dos Acordos de paz de Minsk sobre a Ucrânia numa antecipação da cimeira de 9 de dezembro em Paris, que vai reunir pela primeira vez desde 2016 os líderes dos países envolvidos.

"Agora repetem-se cada vez mais as teses de que os Acordos de Minsk devem ser revistos. Vemos que aí [na Ucrânia] se colocam questões que na perspetiva do pacto sobre o Donbass consideramos inadmissíveis e contraproducentes", considerou Vladimir Putin no decurso do fórum económico "A Rússia chama".

Putin também considerou "incompreensíveis" as afirmações do Presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy de que a lei sobre o estatuto especial para a região do Donbass [sudeste da Ucrânia] deve ser substituída em 1 de janeiro, mas sem apresentar uma alternativa que reconheça um estatuto de autonomia para as zonas controladas pelos separatistas pró-russos.

A cimeira de Paris vai reunir os líderes da Ucrânia, Rússia, França e Alemanha, numa tentativa de fornecer novo ímpeto ao protocolo de Minsk, firmado em 2014 pelas partes beligerantes e que conheceram uma segunda versão após mediação internacional.

Putin também se opôs ao envio da guarda nacional ou da polícia ucraniana para as zonas de Donetsk e Lugansk que registaram recentemente a retirada do exército ucraniano, e que foram ocupadas pelas milícias pró-russas.

"Se [os ucranianos] regressarem, não vai acontecer nada de bom, já que haverá uma resposta simétrica pelas milícias das repúblicas populares [autoproclamadas] de Donetsk e Lugansk", advertiu.

Recordou ainda que a guarda nacional ucraniana é integrada "na sua maioria" por membros de organizações ultranacionalistas, acusadas por Moscovo e os separatistas de atrocidades contra a população local. Numa referência a Zelenskiy, com que ainda não se reuniu desde a sua tomada de posse em maio, Putin reconheceu que apenas manteve contactos com o homólogo de Kiev e definiu-o como uma pessoa "agradável e sincera".

"Na minha perspetiva, pretende de facto alterar a situação para melhor, inclusive no Donbass. Mas ainda não sei em que medida está em condições de fazê-lo. No entanto foram efetuados alguns passos positivos", indicou.

Nessa perspectiva, Zelenskiy anunciou esta semana que vai propor na cimeira de Paris, que vai decorrer de acordo com o designado "formato de Normandia", prazos "mais ou menos concretos" para recuperar o Donbass, palco de uma guerra que se prolonga há cinco anos e provocou mais de 13.000 mortos.

Zelenskiy, cuja principal promessa eleitoral foi o fim da guerra no leste da Ucrânia, considerou que a cimeira deve começar com a discussão sobre a convocatória de eleições nas zonas controladas pelos separatistas pró-russos nas províncias de Donetsk e Lugansk.

O Presidente ucraniano expôs os 'dossiers' que deseja abordar em Paris no decurso de uma deslocação que efetuou esta quarta-feira ao leste, na presença dos embaixadores francês e alemão, onde inaugurou uma ponte destinada a facilitar a passagem dos civis pela linha da frente.

No local, referiu-se ao "controlo pela Ucrânia da sua fronteira" com a Rússia, onde mais de 400 quilómetros são atualmente controlados pelos separatistas, e que segundo Kiev e os ocidentais permite a Moscovo enviar tropas e armas às milícias rebeldes.

As violações do cessar-fogo e futuras trocas de prisioneiros também serão abordadas nas discussões de alto nível previstas para dezembro.

No decurso de uma conversa telefónica, Putin e o Presidente francês Emmanuel Macron asseguraram na segunda-feira que a cimeira de 9 de dezembro deve "efetivamente" impulsionar a "imediata e total" aplicação dos acordos de paz para o Donbass.

No entanto, o chefe da diplomacia alemã, Heiko Maas, assegurou ontem em Kiev que na perspetiva do seu Governo "cabe agora à Rússia aplicar o que foi acordado durante as negociações".

A Fórmula Steinmeier, acordada pelas partes em conflito com o objetivo de impulsionar a aplicação dos Acordos de Minsk, contempla a convocação de eleições locais no Donbass e a formação de um governo autónomo nas regiões separatistas, caso o escrutínio seja considerado democrático pelos observadores internacionais.

A futura cimeira foi precedida por diversos episódios de apaziguamento nas relações entre Moscovo e Kiev. Em setembro ocorreu uma importante troca de prisioneiros e procedeu-se à retirada de tropas ucranianas de combatentes separatistas pró-russos de três pequenos setores da linha da frente.

Na segunda-feira, a Rússia restituiu à Ucrânia três navios militares apreendidos há um ano ao largo da Crimeia no decurso de um incidente naval que constituiu o primeiro confronto armado direto entre os dois países vizinhos.

Ao contrário do seu antecessor, Petro Poroshenko, partidário de uma linha dura face a Moscovo, o Presidente Volodymyr Zelenskiy, um ex-comediante eleito triunfalmente em abril, é mais favorável ao diálogo.

Esta abordagem é, no entanto, rejeitada por setores da população ucraniana, em particular entre os setores nacionalistas e os antigos combatentes que se têm manifestado contra o que consideram uma "capitulação" face a Moscovo.

Lusa