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O Sol visto de perto: uma série de surpresas

NASA

Os primeiros resultados das investigações da sonda Parker da NASA estão a surpreender os cientistas.

A sonda espacial Parker Solar Probe da NASA alcançou um feito inédito: é o engenho fabricado pelo Homem que mais se aproximou do Sol. Está agora na fogosa coroa, a camada mais próxima da atmosfera solar, e descobriu um "mundo espantosamente caótico", revelam os cientistas que acompanham a sonda.

"Estamos a descobrir coisas que nunca havíamos imaginado", diz entusiasmado Matthieu Berthomier do laboratório francês de física de plasmas. "Nomeadamente, que a velocidade do vento solar não é de todo regular. Ela pode aumentar de uma forma muito impulsiva, por vezes de 100/150 km por segundo. É muito estranho".

Os primeiros dados das obervações da sonda lançada a 12 de agosto alimentam quatro estudos publicados esta semana na revista científica Nature e desvenda um mundo que os cientistas da Universidade de Michigan classificam de "espantosamente caótico".

"Ficamos chocados ao ver como a coroa é tão diferente quando é vista de perto", afirma Justin Kasper, da Universidade de Michigan.

Desvendar o mistério sobre o que faz aquecer a coroa solar

A sonda Parker da NASA tem um objetivo primordial: tentar resolver o velho mistério como aquece a coroa solar e porque é mais quente que a superfície do Sol.

A parte mais externa da atmosfera solar é, curiosamente, 200 vezes mais quente que a superfície. Este calor extremo - 2 milhões de graus Celsius, enquanto à superfície é de 5.500ºC - não pode por isso ser gerado pela nossa estrela porque, de acordo com as leis da natureza, quanto mais longe se está de uma fonte de calor, mais a temperatura baixa.

"A coroa tem um meio de se aquecer a si própria. Estamos à procura de determinar quais são esses processos físicos", explicou à AFP Alexis Rouillard, investigador CNRS no Instituto de Investigação em Astrofísica, um dos autores de um dos estudos.

Ventos solares e campo magnético do Sol

Enquanto a sonda não dá resposta a esta primeira pergunta, outros dados recolhidos permitiram já perceber um pouco mais sobre os ventos solares.

Estes fluxos de partículas ionizadas agitam o campo magnético da Terra - que protege o planeta da radiação solar - e interferem com o clima espacial. Estes ventos podem mudar a órbita dos satélites, encurtar a sua esperança de vida e alterar o funcionamento de equipamentos eletrónicos a bordo, assim como pôr em perigo a vida de astronautas.

Uma das surpresas foi constatar que o vento solar não é um fluxo contínuo, tem picos repentinos e abruptos com rajadas que podem alcançar os 480 mil quilómetros por hora.

Ventos solares não são um fluxo contínuo

Ventos solares não são um fluxo contínuo

NASA

Outra descoberta inesperada: o comportamento do campo magnético - que deve ter certamente um papel importante no misterioso aquecimento da coroa. Num momento, o campo magnético inverte 180º e, segundos depois ou horas mais tarde, gira de novo.

E são os picos abruptos na velocidade do vento solar que provocam esta inversão do campo magnético, um fenómeno chamado "switchback".

As cinco novas descobertas da sonda Parker explicadas pela NASA

O objeto mais rápido e mais perto do Sol

Em outubro deste ano, a sonda quebrou dois recordes: o de aproximação do Sol quando estava a apenas 42,73 milhões de quilómetros do astro rei, (o anterior recorde pertencia à sonda americano-alemã Helios-2, em abril de 1976) e o de engenho espacial mais rápido da História, ao atingir 247 mil quilómetros por hora. O anterior recorde também pertencia à sonda Helios-2 em 1976.

Até 2024, a sonda vai efetuar 24 aproximações ao Sol acabando por chegar a "meros" 6 milhões de quilómetros de distância - sete vezes mais perto que um engenho espacial já se aproximou.

Para enfrentar as condições infernais da atmosfera do Sol e sobreviver a temperaturas de 1400ºC, a sonda Parker da NASA tem um escudo protetor feito de um composto de carbono que protege os instrumentos científicos a bordo a uma confortável temperatura de 29ºC.

À superfície, a temperatura do Sol atinge os 5.500ºC. Na coroa, a parte mais exterior da sua atmosfera, visível como um anel durante os eclipses, os termómetros chegam aos 2 milhões de graus Celsius.

A importância do estudo do Sol

Justificando a importância da missão, a NASA salienta que perturbações no vento solar agitam o campo magnético da Terra, que protege o planeta da radiação solar, e interferem com o clima espacial, que pode mudar a órbita dos satélites, encurtar a sua esperança de vida e alterar o funcionamento de equipamentos eletrónicos a bordo, assim como pôr em perigo a vida de astronautas.

A sonda tem o nome do astrofísico norte-americano Eugene Parker, de 91 anos, que apresentou, na década de 50, uma série de conceitos para explicar como as estrelas, incluindo o Sol, libertam energia. Chamou vento solar à cascata de energia do Sol e descreveu todo um "sistema complexo" de plasmas, campos magnéticos e partículas energéticas associado ao conceito de vento solar.

Parker teorizou uma explicação para a temperatura extremamente elevada da coroa solar e mais quente do que a superfície do Sol - diz que as erupções solares regulares, mas pequenas, podem causar este calor intenso.

"Uau!", reage Eugene Parker

A NASA recolheu as primeiras impressões do astrofísico norte-americano ao ver as mais recentes descobertas feitas pela sonda com o seu nome. O vídeo foi publicado a 4 de dezembro na página do YouTube da NASA.