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Greenpeace vê insulto do Presidente do Brasil como elogio

Rupak De Chowdhuri

Jair Bolsonaro disse que a ONG era "um lixo" depois de várias organizações considerarem a sua política ambiental prejudicial para a Amazónia.

A Greenpeace considerou na quinta-feira como um elogio as declarações do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, que classificou a organização não-governamental (ONG) de lixo, porque são de alguém interessado em destruir o meio ambiente.

"Ao longo da história, a nossa postura crítica a quem promove a destruição ambiental já causou muitas reações desequilibradas dos mais diferentes personagens. Estamos apenas diante de mais uma delas. Nestes casos, o incómodo de quem destrói o meio ambiente soa como elogio", refere a Greenpeace em comunicado, acrescentando que "lamenta que um Presidente da República apresente postura que não condiz com o cargo que ocupa".

O comunicado da ONG é uma resposta a Jair Bolsonaro, que apelidou na quinta-feira a Greenpeace de lixo, num novo ataque às ONG que consideram a sua política ambiental prejudicial à Amazónia.

"Quem é a Greenpeace? Quem é essa porcaria chamada Greenpeace? Isso é um lixo", disse o chefe de Estado a jornalistas, em Brasília, ao ser questionado sobre críticas da ONG às mudanças introduzidas esta semana no Conselho Nacional da Amazónia, órgão fundado em 1995 e reativado este ano para coordenar políticas governamentais vinculadas aos territórios que abrigam aquela que é a maior floresta tropical do mundo.

Na resposta ao chefe de Estado, a Greenpeace fez questão de explicar a sua origem e missão.

"A organização existe há quase meio século e está presente em 55 países. No Brasil, atua há 28 anos na defesa do ambiente e colabora, inclusive, com autoridades na denúncia de crimes ambientais. Somos uma organização sem fins lucrativos, com independência financeira e política, e continuaremos a trabalhar incansavelmente na defesa ambiental, da democracia e dos direitos das populações. Irrite a quem irritar", adianta a Greenpeace.

A ONG acrescenta que, no Brasil, têm "criticado e combatido as políticas do Governo que levaram ao aumento da desflorestação e ao desmantelamento dos órgãos de fiscalização", além de se posicionarem "contra os absurdos ataques aos direitos dos povos indígenas".

Reativado Conselho Nacional da Amazónia sem inclusão dos governadores dos estados envolvidos

A polémica surgiu quando o Governo de Jair Bolsonaro decidiu reativar o Conselho Nacional da Amazónia por decreto na terça-feira, colocando-o sob a supervisão do vice-presidente, Hamilton Mourão, com a participação de 14 ministérios, mas excluindo os governadores dos estados envolvidos, desencadeando muitas críticas.

"Este conselho não tem plano, meta ou orçamento. Ele não reverterá a política anti-ambiental do Governo e não visa combater a desflorestação", afirmou em comunicado, na terça-feira, a Greenpeace.

O ressurgimento de incêndios florestais no país, especialmente em agosto e setembro do ano passado, provocou forte comoção internacional, mas o Presidente brasileiro considerou as críticas como ameaças à soberania do Brasil sob a Amazónia.

"Houve incêndios florestais na Austrália e ninguém disse nada. O Papa Francisco disse, na quarta-feira, que a Amazónia era dele, que era de todos. O Papa é argentino, mas Deus é brasileiro", brincou na quinta-feira Jair Bolsonaro.

Na quarta-feira, o Papa Francisco publicou uma "exortação apostólica", intitulada "Querida Amazónia", na qual defendia a preservação da floresta virgem, acusando em particular as multinacionais de terem cortado as veias da mãe Terra.

A Amazónia, a maior floresta tropical do mundo que possui a maior biodiversidade registada numa área do planeta, tem cerca de 5,5 milhões de quilómetros quadrados e inclui territórios do Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa (pertencente à França).