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ONU quer fechar centro de refugiados na Líbia, "o pior país do mundo" para requerentes de asilo

Temas Contemporâneos, 3º prémio individual."The Libyan Migrant Trap" - Duas refugiadas nigerianas abraçam-se num centro de detenção para refugiados em Surman, Líbia. Agosto, 2016. Daniel Etter, Alemanha.

Daniel Etter, Alemanha

Cada vez mais são registados casos de redes de tráfico ilegal de migrantes e situações de sequestro, tortura e violações no país.

A ONU prevê fechar "na próxima semana" um centro de acolhimento temporário de refugiados localizado na capital líbia, Tripoli, frisando que a Líbia se tornou o "pior país do mundo" para os requerentes de asilo.

A intenção foi avançada por uma responsável do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR) na Líbia, em declarações em Paris à agência noticiosa France-Presse (AFP).

A agência da ONU tinha decidido no final de janeiro a suspensão das suas operações neste campo de acolhimento temporário (também designado como um centro de trânsito) em específico depois de ter constatado que um campo de treino militar tinha sido instalado nas imediações da estrutura de acolhimento.

Perante esta situação, que o ACNUR define como uma "linha vermelha", a agência internacional decidiu retirar as pessoas mais vulneráveis do local, que está sob a jurisdição do Ministério do Interior líbio.

Segundo a representante do ACNUR, Caroline Gluck, 119 pessoas permanecem atualmente no centro."Prevemos que será encerrado na próxima semana", referiu Caroline Gluck, prosseguindo:

"Era insustentável manter as coisas como estão, porque o centro transformou-se num alvo".

Em julho de 2019, um ataque aéreo fez mais de 50 mortos e mais de uma centena de feridos num centro para migrantes localizado nos arredores da capital líbia.

Aos refugiados que aguardam neste tipo de centro, e para preparar o seu repatriamento, é proposta uma ajuda financeira que pode ir até aos 1.100 dinares líbios (cerca de 718 euros), dependendo da respetiva situação familiar.

Segundo os dados do ACNUR, os refugiados e requerentes de asilo retidos em centros administrados pelo governo líbio representam apenas 5% dos 47 mil exilados na Líbia.

Apesar da decisão do encerramento, Caroline Gluck admitiu que o ACNUR ainda espera que possa reabrir o centro "a longo prazo".

"Será que vai reabrir como um centro de trânsito? Ou podemos reabrir como um centro de dia com várias agências da ONU onde poderiam operar serviços médicos, alimentares? Tudo vai depender da capacidade de preservar a natureza civil da estrutura", indicou.

A Líbia é um país imerso num caos político e securitário desde a queda do regime de Muammar Kadhafi em 2011 e tornou-se num terreno fértil para as redes de tráfico ilegal de migrantes e situações de sequestro, tortura e violações.

A situação tornou-se ainda mais crítica desde que as forças do marechal Khalifa Haftar, o homem forte do leste líbio e líder de uma das fações que disputam atualmente o poder na Líbia, avançaram em abril de 2019 contra Tripoli, a sede do Governo de Acordo Nacional líbio estabelecido em 2015 e reconhecido pela ONU.

"A Líbia é provavelmente o pior lugar do mundo para refugiados ou requerentes de asilo", afirmou Caroline Gluck.

"Todos os dias, se somos oriundos da África subsaariana, é provável que passemos um período doloroso na Líbia: racismo, assédio, ameaças, violência, roubo (...)", salientou a representante.

Apesar de tal cenário, acrescentou Caroline Gluck, mil novos requerentes de asilo migram da África subsaariana para a Líbia todos os meses.

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