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Austrália vai investigar ataque da polícia a dois jornalistas que cobriam os protestos nos EUA

SAMUEL CORUM

Imagens da televisão mostram a polícia de choque norte-americana a bater em dois jornalistas do canal australiano Channel Seven para os afastar de uma manifestação perto da Casa Branca.

A Austrália vai investigar o ataque policial a dois jornalistas australianos que cobriam os protestos nos Estados Unidos contra a morte de um afro-americano sob custódia policial, anunciou hoje a ministra australiana dos Negócios Estrangeiros.

Trata-se de um incidente “muito sério” que causou “séria preocupação”, afirmou Marise Payne.

Segundo imagens da televisão, a polícia de choque norte-americana bateu em dois jornalistas do canal australiano Channel Seven com um escudo e um bastão, para os afastar de uma manifestação perto da Casa Branca, em Washington.

“A nossa embaixada nos Estados Unidos vai reunir-se com as autoridades relevantes e o Channel Seven dir-nos-á como gostaria de resolver o problema”, disse Payne à estação de rádio RN Drive.

“Sempre apoiámos o direito a fazer protestos pacíficos e exortamos todas as partes a agir com moderação e evitar a violência”, acrescentou a ministra, admitindo que os Estados Unidos estão a passar por um “período muito difícil”.

O Instituto Internacional de Imprensa, uma rede mundial de proprietários e editores de meios de comunicação, condenou na segunda-feira os ataques a jornalistas que cobrem a atual onda de protestos em várias cidades dos EUA.

Os protestos começaram depois de George Floyd, um negro de 40 anos, ter morrido no dia 25 depois de detido por, alegadamente, usar uma nota falsa 20 dólares num supermercado.

Em vídeos gravados por transeuntes, um polícia é visto com o joelho no pescoço de Floyd por quase 9 minutos, mesmo quando Floyd implora para respirar e depois desmaia.

Milhares de pessoas marcharam hoje também no centro de Sydney, manifestando solidariedade para com os norte-americanos que criticam a morte de George Floyd.

Os manifestantes percorreram a maior cidade da Austrália, cantando “Não consigo respirar” - as últimas palavras de Floyd, mas também de David Dungay, um aborígene de 26 anos que morreu numa prisão de Sydney em 2015, quando estava a ser detido por cinco guardas.

Os manifestantes empunhavam cartazes onde se lia “Black Lives Mater” (As vidas dos negros têm importância), “Aboriginal Lives Mater” (As vidas dos aborígenes têm importância), “White Silence is Violence” (O silêncio branco é violência), além de frases como “Estamos aqui porque vocês não estão”, acompanhadas de imagens de Floyd e Dungay.

Cerca de 2.000 manifestantes reuniram-se na cidade de Perth, na costa oeste da Austrália, na noite de segunda-feira para protestar pacificamente pela morte de Floyd e há comícios planeados para outras cidades australianas durante esta semana.

Um deputado australiano indígena pediu aos governos que usem a morte de Floyd como uma oportunidade para reduzir as mortes de indígenas sob custódia.

Linda Burney, porta-voz da oposição dos australianos indígenas, defendeu que mais de 430 indígenas morreram sob custódia da polícia australiana desde 1991.

“Acho que devemos usar este caso (dos EUA) como uma oportunidade”, disse Burney à Australian Broadcasting Corp., referindo-se à morte de Floyd.

“Quer gostemos ou não, não é preciso muito para o racismo sair do ventre deste país”.

Entretanto, vários líderes africanos têm-se manifestado sobre o assassinato de Floyd.

“Não pode ser correto que, no século XXI, os Estados Unidos, um grande bastião da democracia, continue a enfrentar o problema do racismo sistémico”, disse a Presidente do Gana, Nana Akufo-Addo, em comunicado, acrescentando que negros de todo o mundo ficaram chocados e perturbados.

O líder da oposição queniana e ex-primeiro-ministro Pinor Raila Odinga orou pelos EUA, pedindo “justiça e liberdade para todos os seres humanos que chamam à América o seu país”.

Na Europa, na segunda-feira, milhares de pessoas espalharam-se pelas ruas de Amesterdão para denunciar a brutalidade policial, e manifestantes em Paris pediram ao Governo francês que levasse a violência policial mais a sério, mostrando cartazes onde se lia “O racismo está a sufocar-nos”.