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ONU. Pandemia e protestos evidenciam "discriminação racial endémica" nos EUA

Mike Segar

Declarações de Michelle Bachelet, Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos.

A pandemia da covid-19 e os recentes protestos desencadeados pela morte de um afro-americano sob custódia policial colocaram em evidência a "discriminação racial endémica" nos Estados Unidos, declarou esta terça-feira a Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos.

"O vírus [novo coronavírus, responsável pela doença covid-19] revelou as desigualdades endémicas que foram ignoradas por muito tempo", afirmou a chilena Michelle Bachelet, citada num comunicado de imprensa, numa referência à atual pandemia da covid-19 e aos números verificados em particular no território norte-americano.

Os Estados Unidos da América (EUA) são o país com mais mortos (105.147) e mais casos de infeção pelo novo coronavírus confirmados (mais de 1,8 milhões), de acordo com os números mais recentes.

Denis Balibouse

Segundo a ex-Presidente do Chile, nos EUA, a taxa de mortalidade da doença covid-19 é duas vezes maior entre os afro-americanos do que em outras comunidades.

No mesmo comunicado, Michelle Bachelet falou igualmente dos protestos que têm ocorrido nos últimos dias em várias cidades norte-americanas após a morte, na semana passada, de um cidadão afro-americano, George Floyd, durante uma intervenção policial na cidade de Minneapolis.

"Nos Estados Unidos, os protestos provocados pela morte de George Floyd não colocam apenas em evidência a violência policial contra pessoas de cor, mas também as desigualdades na saúde, educação, emprego e a discriminação racial endémica", frisou a Alta Comissária da ONU.

A morte de George Floyd

George Floyd, um afro-americano de 46 anos, morreu em 25 de maio, em Minneapolis (Minnesota), depois de um polícia branco lhe ter pressionado o pescoço com um joelho durante cerca de oito minutos numa operação de detenção, apesar de Floyd ter dito que não conseguia respirar.

O agente da polícia em questão, Derek Chauvin, foi demitido, detido e acusado de homicídio.Uma semana depois do caso, centenas de milhares de norte-americanos têm vindo para as ruas de dezenas de cidades norte-americanas para protestar contra a violência policial, o racismo, mas também contra as desigualdades sociais, que foram agravadas pela crise da covid-19.

Alguns protestos têm degenerado em atos violentos e em confrontos com a polícia, com o registo de milhares de detenções, várias vítimas mortais e vários agentes da polícia alvejados. Em várias cidades, incluindo em Washington, foi decretado um recolher obrigatório.

Na segunda-feira, numa declaração feita a partir da Casa Branca, o Presidente norte-americano, Donald Trump, prometeu restaurar a ordem no país, ameaçando mobilizar as forças militares para acabar com a violência nas ruas.

Ainda no mesmo comunicado, Michelle Bachelet referiu que os problemas de discriminação conjugados com a desigualdade associada à covid-19 não é uma situação exclusiva dos EUA, denunciando que tal também "se verifica em diferentes graus em muitos outros países".

"As estatísticas mostram um impacto devastador da covid-19 nas populações de origem africana, bem como nas minorias étnicas em certos países, incluindo Brasil, França, Reino Unido (...)", disse a Alta Comissária da ONU.

"É uma tragédia que tenha sido preciso a covid-19 para mostrar o que já deveria ser óbvio - que um acesso desigual aos cuidados de saúde, habitações sobrelotadas e uma discriminação omnipresente tornam as nossas sociedades menos estáveis, menos seguras e menos prósperas", concluiu Bachelet.

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