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Líder do movimento xiita libanês Hezbollah pede governo de partidos tradicionais

Governo do Líbano demitiu-se em bloco na segunda-feira.

O líder do movimento xiita libanês Hezbollah, Hassan Nasrallah, pediu esta sexta-feira a formação de um governo juntando os partidos tradicionais do Líbano, após a demissão do executivo sob pressão popular devido à devastadora explosão em Beirute.

"Exigimos a formação de um governo de unidade nacional e se isso não for possível de um governo com a mais ampla representação possível de políticos e especialistas", disse o secretário-geral da poderosa formação pró-iraniana num discurso na televisão.

Face à cólera na rua, que responsabiliza a classe política pela explosão no dia 04 no porto de Beirute que causou mais de 170 mortos e 6.500 feridos, destruindo bairros inteiros, o Governo de Hassan Diab demitiu-se na segunda-feira.

O movimento de protesto popular e a comunidade internacional pedem a formação de um governo de confiança, que poderia coordenar o fluxo de ajuda e ajudar o Líbano a sair da crise política e económica em que está mergulhado.

Hassan Nasrallah pediu "um governo forte, capaz e que seja protegido politicamente" pelos partidos, e ridicularizou os apelos da rua e de alguns países cristãos por um governo "neutro", afirmando que seria "uma perda de tempo" e que "não existem pessoas neutras no Líbano".

O discurso do líder do Hezbollah ocorre depois de o "número três" da diplomacia norte-americana, David Hale, ter afirmado hoje em Beirute que o seu país estava pronto a apoiar um governo que "responda à vontade do povo", e que "se comprometa honestamente e aja por uma mudança real".

O chefe da diplomacia iraniana, Mohammad Javad Zarif, por seu turno, declarou em Beirute que "cabe ao Estado e ao povo do Líbano decidirem sobre o futuro do Líbano".

Nasrallah também acusou certas partes de terem tentado, na sequência da explosão, "derrubar o Estado" e nomeadamente o seu aliado, o Presidente Michel Aoun, "tentando responsabilizá-lo" pela tragédia ocorrida no porto da capital libanesa.

"Alguns até queriam levar o país à beira da guerra civil", adiantou, acusando, sem os nomear, "partidos políticos libaneses".

O dirigente do Hezbollah afirmou, por outro lado, não dar qualquer importância ao veredicto do Tribunal Especial para o Líbano (TEL), que julga quatro alegados membros do seu movimento pelo assassínio do antigo primeiro-ministro libanês Rafic Hariri.

O anúncio do veredicto, inicialmente previsto para 07 de agosto, foi adiado para terça-feira, dia 18, devido à explosão no porto de Beirute.

"Não nos consideramos envolvidos pelas decisões do TEL", declarou Nasrallah, adiantando: "Para nós será como se a decisão não tivesse sido anunciada".

"Se os nossos irmãos forem condenados injustamente, como esperamos, continuaremos apegados à sua inocência", disse ainda, lembrando que rejeitou antes decisões daquele tribunal.

Os quatro réus, todos presumíveis membros do Hezbollah, foram julgados à revelia. O movimento xiita, que rejeitou qualquer responsabilidade no assassínio, recusou-se a entregar os suspeitos, apesar de vários mandados de detenção emitidos pelo TEL.

Hassan Nasrallah advertiu que "alguns tentarão explorar o TEL para atacar a resistência e o Hezbollah", e pediu aos seus apoiantes que "sejam pacientes" em caso de reações nas ruas após o anúncio do veredicto.

O antigo primeiro-ministro e milionário sunita Rafic Hariri - pai do chefe de governo libanês Saad Hariri, que foi substituído por Hassan Diab - morreu em fevereiro de 2005 quando uma carrinha armadilhada explodiu à passagem da sua comitiva. O atentado matou 21 outras pessoas e feriu 226.