Mundo

O que se passa na Tailândia?

Sakchai Lalit

Protestos pró-democracia ameaçam o Governo liderado por um ex-militar e colocam monarquia em causa.

Os protestos na Tailândia contra o Governo já duram desde junho, mas foi no início de agosto que as manifestações tomaram um novo rumo, quando a monarquia – considerada sacrossanta – foi colocada em causa.

Um dos principais motivos que levou milhares de ativistas e estudantes às ruas de Banguecoque foi o desagrado com o primeiro-ministro, o general Prayuth Chan-ocha. O ex-militar chegou ao poder em 2014, através de um golpe militar, e continuou no cargo após a polémica eleição de 2019, marcada por acusações de fraude.

Nas manifestações, apoiadas por milhares de estudantes, são feitas três exigências: a realização de novas eleições, alterações à constituição imposta pelos militares e o fim da intimidação dos críticos do Governo.

No início de agosto, os manifestantes geraram polémica ao aumentarem as exigências originais, criticando publicamente a monarquia constitucional da Tailândia. Através da publicação de um manifesto, pediram pela reforma dos poderes da monarquia e a restrição de poderes do rei Maha Vajiralongkorn.

O rei Maha Vajiralongkorn

O rei Maha Vajiralongkorn

JORGE SILVA

A instituição é considerada sacrossanta no país e a legislação prevê penas de prisão até 15 anos para qualquer pessoa considerada culpada de difamar o rei.

Os protestos

Apesar as manifestações estarem proibidas, milhares de estudantes e ativistas continuam a desafiar as ordens das autoridades para sair à rua e protestar.

Na quarta-feira, cerca de 400 alunos, vestidos com o uniforme escolar e fitas brancas – um símbolo do protesto -, juntaram-se ao movimento antigovernamental e fizeram saudações com três dedos, um sinal de resistência importado do filme "Jogos da Fome".

No sábado, uma marcha "pacifica e festiva" reuniu entre 10 mil e 30 mil pessoas junto ao Monumento à Democracia, no centro histórico da capital tailandesa.

Organizada pelo movimento "Free People", a manifestação durou mais de seis horas, de acordo com a agência EFE, que adianta ainda que a maioria dos manifestantes eram estudantes na casa dos 20 anos. Cantaram canções, levantaram três dedos em sinal de resistência ao autoritarismo e gritaram "Democracia!".

Em declarações à agência Efe, Sinthorn, uma recém-licenciada de 23 anos disse que estavam a protestar para "exigir democracia e denunciar a falta de liberdade de expressão". E prosseguiu, acusando o Governo e a monarquia de gastar o dinheiro da população e não fazer nada por ela.

No sexta-feira passada, cerca de mil alunos reuniram-se na Universidade Chulalongkorn, no centro de Banguecoque, para protestar.

"Estamos fartos da ditadura, das vozes populares serem ignoradas, dos ativistas perseguidos pelas autoridades, dos desaparecimentos forçados, do governo alinhar com os capitalistas, deixando o resto do povo a sofrer, a lei não ser aplicada às elites connosco, as pessoas sem qualquer tipo de poder", afirmou Sirin Mungchareon, um dos participantes, citado pela Lusa.

As detenções

Na sexta-feira, o líder estudantil do movimento antigovernamental da Tailândia Parit 'Pinguim' Chiwarak foi detido. Considerado uma das figuras do movimento, o estudante acabou por ser libertado no dia seguinte, a troco do pagamento de uma fiança e sob a acusação de sedição.

Parit 'Pinguim' Chiwarak

Parit 'Pinguim' Chiwarak

ATHIT PERAWONGMETHA

O vídeo da detenção foi transmitido ao vivo nas redes sociais e mostra o momento em que o líder da União de Estudantes Tailandeses é detido pelas autoridades. As imagens geraram uma onda de solidariedade nas redes sociais, onde foi criado o hashtag #SaveParit.

Na mesma semana, foi detido também um advogado e outro líder estudantil. Ambos foram libertados sob fiança 24 horas depois, acusados de 10 crimes, incluindo sedição e violação da lei de emergência sanitária.

Esta quinta-feira, as autoridades anunciaram que prenderam mais nove ativistas, incluindo dois populares músicos, numa operação de repressão face aos protestos.

De acordo com a agência Reuters, os nove manifestantes enfrentam acusações de violação da segurança interna, devido a um protesto que teve lugar a 18 de julho, e violação da lei de emergência sanitária, que impede ajuntamentos públicos para prevenir a propagação da Covid-19.

Entre os detidos está Dechathorn Bamrungmuang, de 30 anos, um membro importante do "Rap Contra a Ditadura", que começou a ganhar popularidade no ano passado. O outro músico é Thanayut Na Ayutthaya, um rapper de 19 anos, também conhecido como Elevenfinger.

Dechathorn Bamrungmuang, Thanayut Na Ayutthaya e Anon Nampa.

Dechathorn Bamrungmuang, Thanayut Na Ayutthaya e Anon Nampa.

SOE ZEYA TUN

No mesmo dia, os nove detidos foram libertados sob fiança, sob a condição de não voltarem a cometer os crimes.

Centenas de pessoas reuniram-se junto ao estabelecimento prisional onde estavam detidos, em Banguecoque, para mostrar o apoio aos ativistas e para continuar os protestos contra o Governo. "Acabem com a ditadura", "vida longa ao rei" ou "parem de assediar as pessoas" foram alguns dos slogans que se ouviram.

Após ser libertado, Dechathorn disse aos jornalistas que estava com "medo" quando foi detido, mas que vai continuar a lutar pela causa.

Dechathorn Bamrungmuang

Dechathorn Bamrungmuang

DIEGO AZUBEL

Os protestos acontecem numa altura em que a economia do país está em crise, devido às medidas tomadas para enfrentar a pandemia de Covid-19 e que devastaram a indústria do turismo, a principal fonte de receitas nacional.