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Líder checo arranca aplausos no parlamento de Taiwan ao dizer "eu sou taiwanês"

RITCHIE B. TONGO

Milos Vystrcil invocou no seu discurso a memória de John F. Kennedy que, durante a Guerra Fria, em 1963, afirmou em alemão "Ich bien ein Berliner".

O presidente do Senado da República Checa arrancou esta terça-feira aplausos dos deputados de Taiwan, durante um discurso no qual disse "eu sou taiwanês", em mandarim, numa visita que Pequim considerou um "ato odioso".

Milos Vystrcil invocou especificamente no seu discurso a memória do ex-presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy que, durante a Guerra Fria, em 1963, afirmou em alemão "Ich bien ein Berliner" ("Eu sou um Berlinense", em português) aos residentes da parte ocidental de Berlim, então preocupados com a ameaça do bloco soviético.

Kennedy "usou a frase para mostrar o seu apoio ao povo de Berlim e aos valores mais elevados da liberdade", disse Vystrcil.

"Talvez eu possa ser mais humilde, mas permitam-me usar a mesma frase para concluir o meu discurso no parlamento do vosso país", acrescentou.

A frase foi dita em mandarim, rendendo ao representante checo uma ovação de pé das autoridades de Taipé.

China e Taiwan vivem como dois territórios autónomos desde 1949, altura em que o antigo governo nacionalista chinês se refugiou na ilha, após a derrota na guerra civil frente aos comunistas.

No entanto, Pequim considera Taiwan parte do seu território, e não uma entidade política soberana, e ameaça usar a força caso a ilha declare independência.

Vystrcil, que usou uma máscara branca adornada com as bandeiras da República Checa e de Taiwan, chefia uma delegação de 90 pessoas, cuja visita a Taiwan foi denunciada por Pequim como um "ato hediondo" e "traição internacional".

O ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Wang Yi, chamou a visita de "provocação" e disse que Vystrcil vai "pagar caro" pela sua "falta de visão e especulação política".

O ministério dos Negócios Estrangeiros da República Checa disse no seu portal oficial que o vice-ministro Martin Tlapa expressou junto do embaixador chinês em Praga a sua "desaprovação" pelas palavras de Wang Yi.

Vystrcil disse que a sua visita é uma forma de afirmar a soberania checa e que o seu país "não precisa receber ordens de outros países, especialmente de países não democráticos", numa referência explicita a Pequim.

A visita de cinco dias ocorre semanas depois de uma visita histórica do secretário de Saúde dos Estados Unidos, Alex Azar, que se tornou no mais proeminente funcionário do governo dos Estados Unidos a visitar a ilha, desde que Washington escolheu, em 1979, reconhecer Pequim em vez de Taiwan.

A ilha funciona como uma entidade política soberana, apesar de o regime chinês considerar que está sob a sua soberania.

A China condena qualquer contacto oficial entre a ilha de 23 milhões de habitantes e autoridades estrangeiras.

Pequim cortou os mecanismos de diálogo com Taipé desde a eleição de Tsai Ing-wen, do Partido Progressista Democrático (DPP, sigla em inglês), pró-independência, em 2016, e afirmou que só aceita voltar atrás se a líder taiwanesa declarar que a ilha é parte da China.

A visita de seis dias de Vystrcil a Taiwan foi motivada em parte por reclamações do lado checo de que a China estava a introduzir elementos políticos indesejados nas suas relações.

Praga e Pequim romperam as relações entre cidades geminadas depois de a China se recusar a retirar a linguagem do acordo que ditava que o governo da cidade apoiasse o "princípio de 'uma China'", que define Taiwan como parte da República Popular da China.

O antecessor de Vystrcil, Jaroslav Kubera, tinha uma viagem planeada a Taiwan.

Kubera morreu em janeiro passado e Vystrcil disse que a pressão da China, incluindo um aviso da embaixada chinesa contra a decisão de parabenizar a Presidente de Taiwan, Tsai Ying-wen, pela sua reeleição, contribuiu para a decisão de viajar para a ilha.

O corte de laços diplomáticos com Taiwan é tido como a base para manter relações e contactos oficiais com Pequim.

Tsai foi reeleita em janeiro, e mais países estão a procurar aprofundar as suas relações com Taiwan, sobretudo países preocupados com o expansionismo chinês. A República Checa é um deles.