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Brasil. Pelo menos 3.148 pessoas mortas por polícias no primeiro semestre

Pilar Olivares

O Rio de Janeiro é o estado com mais pessoas mortas nos primeiros seis meses do ano.

Pelo menos 3.148 pessoas foram mortas no Brasil por polícias no primeiro semestre do ano, um número 7% superior ao registado no período homólogo de 2019, quando foram contabilizadas 2.934 mortes.

Os dados fazem parte de um levantamento feito pelo portal de notícias G1, em parceria com o Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com base nos dados oficiais de 25 estados e do Distrito Federal.

A pesquisa não incluiu informações do estado de Goiás, que se recusou a fornecer os dados solicitados.

O levantamento mostrou que o Rio de Janeiro é o estado com mais pessoas mortas nos primeiros seis meses do ano (775). Contudo, em comparação com o mesmo período do ano passado, o estado teve uma queda de mais de 12% nos registos (foram 885 mortes em 2019), com junho a ser um dos meses com menos óbitos.

A queda coincide com uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que, em junho passado, proibiu operações policiais nas comunidades do Rio de Janeiro durante a pandemia da covid-19, depois de alegados abusos de agentes terem causado dezenas de mortes.

As ações policiais têm sido duramente criticadas por se realizarem num momento em que os moradores permanecem mais tempo nas favelas, devido ao isolamento social recomendado pelas autoridades sanitárias face à covid-19, ficando mais vulneráveis aos confrontos entre polícia e gangues.

"Há um discurso bastante generalizado entre as polícias de que as operações são inevitáveis para controlo do crime. Enquanto isso, observamos que as operações caíram, as mortes em geral caíram e os indicadores criminais não subiram. Começamos a perceber que a preservação da vida não se opõe ao controlo do crime", avaliou, em declarações ao G1, o professor de sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Daniel Hirata, ao comentar a situação do Rio de Janeiro.

A partir de março deste ano, a pandemia na covid-19 começou a crescer no Brasil e a unidades federativas implementaram medidas de isolamento social para tentar travar a disseminação do novo coronavírus.

Mesmo tendo sido condicionada a circulação dos cidadãos, registou-se um aumento de pessoas mortas por polícias em 17 estados. Exemplo disso é Mato Grosso, onde o número de óbitos mais do que duplicou, passando de 25 mortes em 2019 para 53 este ano.

A secretaria de Segurança desse estado justificou os números com uma maior necessidade de intervenção nos casos em que os suspeitos utilizam armas de grande calibre e que, no primeiro semestre deste ano, foram retirados sete fuzis de circulação, 40% a mais que no mesmo período de 2019.

"Outro fator é a apreensão de drogas. De janeiro a junho, foram apreendidas 5,7 toneladas de estupefacientes, um prejuízo de aproximadamente 51,5 milhões de reais (8,15 milhões de euros) ao crime. Descapitalizadas, as pessoas envolvidas com o tráfico passaram a reagir e usar equipamento bélico mais pesado", argumentou a secretaria ao portal G1.

Além de Mato Grosso, nove das 27 unidades federativas do Brasil tiveram subidas de 40% ou mais no número de pessoas mortas pela polícia: Amazonas, Bahia, Distrito Federal, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Roraima, Santa Catarina, Sergipe e Tocantins.

Outro dado revelado é que o número de agentes policiais que morreram em serviço, ou fora dele, também aumentou no primeiro semestre de 2020, quando 103 polícias foram mortos. Trata-se de um aumento de 24% em relação aos 83 que foram assassinados no ano passado.

São Paulo contabilizou a morte de 28 agentes, sendo a unidade federativa com maior número de assassinatos de agentes.

"O número de polícias mortos é bastante preocupante. Apenas a título de comparação, em todas as polícias norte-americanas morreram, ao longo do ano de 2019, 48 agentes. No Brasil, num semestre, o número de polícias mortos é praticamente o dobro do número total de agentes mortos num ano nos Estados Unidos", afirmou Renato Alves, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo.