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Líder indígena acusa Bolsonaro de "arrasar a floresta amazónica para plantar soja"

Bruno Kelly

"Para nós, isso equivale a um genocídio", diz.

O líder indígena Laércio Guajajara, membro do grupo Guardiões da Floresta, acusou esta terça-feira o Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, de querer "arrasar a floresta amazónica para plantar soja".

"As palavras do Presidente [Bolsonaro] prejudicam nosso povo. Ele quer explorar ouro, madeira, todos os recursos naturais", afirmou Guajajara, citado pela agência France-Presse, a partir do Reino Unido, onde o líder indígena participou numa campanha internacional de sensibilização sobre os problemas dos povos originários do Brasil.

Laércio Guajajara, de 35 anos, também conhecido como Tainaky, fez alusão às inúmeras declarações de Bolsonaro, que defende a abertura dos territórios indígenas à mineração ou à agricultura.

"Para nós, isso equivale a um genocídio, será uma destruição total", frisou Guajajara.

Criado em 2012 no estado do Maranhão, o grupo Guardiões da Floresta organiza patrulhas para evitar a intrusão ilegal de traficantes de madeira ou mineradores em terras indígenas. Vários desses guardiões foram assassinados nos últimos meses.

"Recebemos ameaças de morte constantemente. Cinco de nós já morremos. Mas continuamos nossa luta porque a floresta é a nossa vida. Sem ela, todos morreremos", disse o indígena, citando parte de um manifesto da campanha internacional.

O primo de Tainaky, Paulino Guajajara, foi morto em novembro, numa emboscada de traficantes de madeira. O líder indígena estava com o primo durante o ataque, foi baleado no braço e nas costas, mas conseguiu escapar.

"O estado prometeu punir os culpados, mas nada foi feito. Ninguém foi preso pelo assassinato de Paulino", lamentou Laércio Guajajara.

Os Guardiões da Floresta, grupo de cerca de 100 indígenas, suspenderam por algum tempo as patrulhas a pedido das autoridades locais, que lhes disseram que a tarefa era da polícia.

Mas o grupo decidiu recomeçar a patrulhar o território nas últimas semanas, perante o aumento das invasões.

"É uma luta que nunca vai acabar, mas não adianta ficar com medo", disse Laércio Guajajara.

"Estou triste e zangado. [As autoridades] criam leis para proteger a vida, mas não as cumprem. Não respeitam o nosso modo de vida, o nosso direito de viver em paz", vincou.

Os atos de violência contra os povos indígenas no Brasil aumentaram 150% no ano passado em relação a 2018, segundo um relatório do Conselho Missionário do Índio (Cimi).

"As intrusões entre os indígenas estão se intensificando e os invasores estão se apoderando de suas terras ilegalmente, causando uma devastação indescritível", denunciou o relatório.

Para Laércio Guajajara, "as coisas só vão mudar se todos os índios lutarem por suas terras".

"Porque se esperarmos alguma coisa do Governo, nunca vamos avançar", afirmou.

"O que eles querem é tirar tudo de nós. Seja o Bolsonaro ou outro Presidente, essa sempre foi a intenção deles", concluiu.