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ONG denuncia tratos cruéis contra venezuelanos que tentam emigrar

Carlos Eduardo Ramirez

A denúncia tem lugar depois de a imprensa local alertar que está a aumentar o número de "caminhantes".

A Funda Redes (FR), uma ONG centrada na defesa e promoção dos Direitos Humanos na Venezuela, denunciou esta quinta-feira que as forças de segurança e grupos armados estão a submeter os "caminhantes" venezuelanos a "tratos cruéis e degradantes".

"Funcionários das diferentes forças de segurança em 'alcabalas rodoviárias' [operações stop] e grupos armados irregulares que controlam longas extensões de território na Venezuela, têm cometido tratos cruéis, desumanos e degradantes, extorsão, tentativa de agressão sexual, roubo, entre outras violações contra migrantes forçados", denunciou o diretor-geral da FR.

Javier Tarazona falava aos jornalistas, no Estado venezuelano de Táchira (fronteiriço com a Colômbia), à saída da "Defensoria do Povo" (espécie de promotoria de justiça), onde consignou documentação sobre violações dos Direitos Humanos dos venezuelanos.

A denúncia tem lugar depois de a imprensa local alertar que está a aumentar o número de "caminhantes", ou seja, cidadãos venezuelanos que caminham a pé pelas estradas do país, até à fronteira com a vizinha Colômbia, para escapar à crise política, económica e social que afeta a Venezuela.

Trata-se de venezuelanos que emigraram para países vizinhos, de onde regressaram porque a pandemia da covid-19 agravou as difíceis situações em que viviam nos países de acolhimento.

"Regressaram e encontraram a situação no seu país mais grave do que quando partiram, pelo que decidiram emigrar novamente. Deslocam-se a pé, fugindo da complexa emergência humanitária e buscando [novamente] sobreviver fora do país", explicou Javier Tarazona.

Segundo a Fundaredes, funcionários das forças de segurança, nas operações stop, despojam os migrantes dos seus haveres, objetos de valor ou dinheiro, para deixá-los avançar.

"Desde o início da pandemia [março de 2020], registaram-se casos de extorsão, levados a cabo pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e do Exército de Libertação Nacional (ELN) contra os que retornavam por veredas ilegais. Agora, a Funda Redes documentou a perversidade dos uniformizados [forças de segurança], contra venezuelanos que partem novamente, fugindo da pobreza, da fome", explicou Javier Tarazona.

Segundo a Funda Redes nos Estados venezuelanos de Apure, Táchira e Zúlia, além de exigir testes da covid-19, funcionários dos organismos policiais, da Guarda Nacional Bolivariana (GNB, polícia militar) e do Exército "cobram em pesos colombianos e em dólares" para permitir que os "caminhantes" passem com a bagagem até à Colômbia.

A FR acrescentou que foram ainda documentados casos em que "alegados coletivos" (grupos armados afetos ao regime) ameaçaram as pessoas que ofereceram atenção aos "caminhantes", em alimentos, hidratação e um lugar para descansar ou permitiram usar a casa de banho.

Em comunicado, a ONG exige ao Estados venezuelanos e aos governantes, que devido "à incapacidade de garantir um país onde as pessoas possam cobrir as necessidades básicas, que pelo menos permitam o direito de migrar em condições dignas e sem ser extorquidas pelos funcionários que deveriam protegê-las".

Segundo a Organização de Estados Americanos (OEA), 5,1 milhões de venezuelanos abandonaram o seu país, desde 2015, escapando da crise política, económica e social que afetava a Venezuela, refugiando-se em países vizinhos.

Dados divulgados em setembro pela OEA, davam conta que quase 111.000 venezuelanos tinham regressado ao seu país, desde o passado mês de março, devido à pandemia da covid-19, através de corredores humanitários desde a Colômbia (105.000 pessoas) e do Brasil (6.000).

Segundo a OEA o Governo venezuelano "os venezuelanos que regressaram ao seu país de origem foram classificados como 'bioterroristas' e 'armas biológicas' por Nicolás Maduro (Presidente da República) e outras autoridades".