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A Lua afinal tem mais água do que se pensava

A Lua fotografada pela Mariner 10 em 1973

NASA/JPL/Northwestern University

Escondida em crateras numa eterna escuridão.

Há mais água na Lua do que se pensava, anunciou hoje a NASA divulgando dois estudos que vieram comprovar a descoberta. Uma excelente notícia para os astronautas que vão regressar à Lua muito em breve, na missão Artemis, e para uma possível estadia de longa duração numa base lunar.

A água não está em grandes reservatórios como acontece na Terra, como em rios, mares, lagos, mas antes em forma de gelo e escondida numa série de crateras que se encontram numa sombra permanente, perto dos polos onde as temperaturas são extremamente baixas.

Até 2009 sempre se pensou que a Lua era totalmente árida, até que nesse ano se descobriu moléculas de água numa das amostras de magma trazidas pelos astronautas da missão Apolo.

Em 2018, os cienstistas confirmaram a presença de água gelada na superfície lunar.

Agora, dois novos estudos publicados hoje na revista Nature Astronomy não só confirmaram a presença de água na Lua, como também descobriram que a a água pode estar distribuída por toda a superfície lunar e não apenas limitada a lugares frios e às escuras.

"Micro-armadilhas frias"

Um primeiro estudo revela a existência de inúmeras micro-crateras que retêm gelo no fundo e a que os cientistas chamam "armadilhas frias".

Acredita-se que o gelo de água esteja preso em grandes regiões permanentemente na sombra nas regiões polares da Lua, devido às suas temperaturas extremamente baixas. Neste estudo mostramos que muitas armadilhas frias não estão no mapa e existem em pequenas escalas, aumentando substancialmente as áreas onde o gelo se pode acumular.

A equipa de Paul Hayne do departamento de astrofísica da Universidade de Colorado, nos Estados Unidos, utilizou os dados de dos instrumentos da sonda da NASA que está em órbita LRO - Lunar Reconaissance Orbiter. Combinando os dados com modelos 3D, conseguiram reproduzir os locais que estão na sombra.

Ali as temperaturas serão as mesmas que nas grandes crateras, cerca de -160°C. Mas são imensas, "encontrámos dezenas de milhares, aos contrário das grandes que são algumas centenas", segundo Paul Hayne.

Juntando aos locais que já se conheciam, a superfície total com água da Lua chega aos 40 mil km2, 60% no polo sul, o que faz com que a água esteja mais espalhada pela Lua do que até agora se pensava.

a - cratera Cabeus perto do polo sul. b - foto captada pelo rover Yutu, c - foto cpatada pela Apollo 14

a - cratera Cabeus perto do polo sul. b - foto captada pelo rover Yutu, c - foto cpatada pela Apollo 14

https://www.nature.com/

Moléculas detetadas em locais da Lua iluminados pelo Sol

Um segundo estudo revela as conclusões dos dados recolhidos pelo observatório SOFIA - Stratospheric Observatory for Infrared Astronomy - da NASA - foram detetadas moléculas de água na cratera Clavius, uma das maiores crateras visíveis da Terra, localizada no hemisfério sul da Lua, iluminada pelo Sol.

Pela primeira vez, os cientistas conseguiram detetar a molécula H2O - a fórmula química da água - e distingui-la de um outro composto químico. Observações anteriores possibilitaram detetar hidrogénio, mas foram incapazes de distinguir entre água e hidroxilo (composto constituído por um átomo de oxigénio e outro de hidrogénio).

De onde virá esta água?

Provavelmente, a água virá de asteroides que caíram na Lua, há milhares de milhares de anos - a mesma hipótese que é atribuída à existência da água na Terra.

As moléculas de água expulsas na queda destes asteroides terão caído no fundo de crateras, onde ficaram aprisionadas para sempre pelo frio.

Se se conseguir alcançar métodos de extração desta água, será um importante recurso para as futuras missões espaciais, nomeadamente a Lunar Gateway, a futura mini estação espacial que será construída na órbita da Lua,

Para as futuras missões tripuladas a Marte, poderemos imaginar uma descolagem da Terra, com uma paragem na "estação de serviço" Lunar Gateway, de onde seriam enviadas sondas até à Lua para recolher água, e assim continuar a viagem até Marte, que terá uma duração de seis meses..

Missão Artemis para voltar à Lua

Quase caída do esquecimento depois da excitação do primeiro passo, a 21 de julho de 1969, o entusiamo pela Lua parece ter despertado de novo.

Cinco décadas depois, os Estados Unidos querem lá levar outra vez astronautas, desta vez incluindo mulheres, como parte da missão até Marte, ao mesmo que se multiplicam os projetos públicos e privados de missões à Lua e de robótica espacial.

A missão Artemis, irmã gémea de Apolo e deusa da caça e da Lua na mitologia greco-romana, está prevista para 2024.

Sete países e a NASA assinam acordo para futura exploração da Lua e outros astros

A NASA anunciou a 14 de outubro que sete países assinaram o documento conhecido como "Acordos de Artemis" que visam enquadrar juridicamente a nova vaga de missões à Lua bem como a outros astros. Mas as grandes potências espaciais rivais não fazem parte do acordo.

"Acordos de Artemis" para enquadrar as próximas viagens espaciais

Os países signatários - Austrália, Canadá, Itália, Japão, Luxemburgo, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido - acordam também a criação de "zonas de segurança" - a parte mais controversa.

Nem a China nem a Rússia fazem parte deste acordo - o que aumenta o receio de uma espécie de "conquista do faroeste" no espaço.

O grande tratado internacional sobre o espaço data de 1967 e é muito pouco explícito sobre a exploração dos recursos extraterrestres.

A NASA tem pressa em o definir um regime jurídico que autorize explicitamente as empresas privadas na exploração espacial. A russa Roscosmos considera que o programa Artemis é demasiado "americano-cêntrico", nas palavras do seu diretor Dmitri Rogozine.

Fotografias históricas da missão Apollo 11 à Lua