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Morte de Sindika Dokolo. Fundação foi alvo de "terrorismo cultural", diz co-fundador Fernando Alvim

O empresário era casado com Isabel dos Santos. Morreu esta quinta-feira, aos 48 anos.

O co-fundador da Fundação Sindika Dokolo e artista plástico Fernando Alvim lamentou esta sexta-feira a morte do empresário congolês e declarou que a entidade que ambos criaram foi alvo de "terrorismo cultural" que levou à sua paralisação.

Em declarações à Lusa em Luanda, Fernando Alvim, destacou "a perda imensa" que representa o desaparecimento de Sindika Dokolo "porque não há muitas pessoas que fizeram o que Sindika Dokolo fez", com impacto no seu país (República Democrática do Congo) e em Angola.

O empresário e colecionador de arte, casado com Isabel dos Santos, filha do ex-presidente angolano José Eduardo dos Santos, morreu na quinta-feira, aos 48 anos, quando mergulhava no Dubai.

Fernando Alvim, que foi vice-presidente da Fundação Sindika Dokolo assinalou o "impacto importante e visível (de Dokolo) no mundo da arte contemporânea", e não apenas na africana, assinalando que os pais criaram desde cedo a apetência para as artes no empresário.

O pai, o banqueiro Augustin Dokolo Sanu, era ele próprio colecionador de arte africana e a mãe, Hanne Taabbel Kruse, gostava de levar Sindika Dokolo a visitar exposições, hábito que também o empresário congolês estava a criar nos filhos, contou.

No entanto, Fernando Alvim lamentou que, durante muitos anos, "a imprensa na sua generalidade nunca deu a visibilidade necessária à Fundação", criada em 2003, e ao contributo para o conhecimento da cultura e da história dos africanos.

"Fomos vítimas de um jogo extremamente violento, uma espécie de terrorismo cultural", salientou o também mentor e curador da Trienal de Luanda, evento do qual a Fundação era parceira.

"Houve uma espécie de 'fatwa' pseudo-democrática feita em relação à Fundação Sindika Dokolo", cujo trabalho foi interrompido entre 2018 e 2019 pela "perseguição constante a Sindika e ao próprio Fernando Alvim que se queixa de ser ignorado pelos media.

"Não é normal que, com o número de eventos que a Trienal de Luanda fez, que a Fundação de Sindika Dokolo fez, que não se tenha dado a devida atenção na altura", desabafou, considerando a omissão "estranha", tendo em conta o "movimento cultural criado em 16 anos"

A "guerra sem precedentes contra a Fundação, a Trienal de Luanda" e os seus promotores levou a que organização, que terá mais de 5000 peças ficasse "desarticuladíssima".

Segundo o artista, uma parte deste espólio está em Luanda "num lugar que pertence a Sindika Dokolo" e outra parte "foi para exposições",

Fernando Alvim disse também que a sede europeia da Fundação, que seria instalada no Porto, na Casa Manuel de Oliveira, não chegou a avançar por que "foi combatida pelo mesmo terrorismo cultural", considerando que "houve um enxovalhar do trabalho que foi desenvolvido para que nada mais acontecesse".

Questionado sobre o destino do Palácio de Ferro, edifício emblemático de Gustave Eiffel que foi palco da Trienal de Luanda e onde Sindika Dokolo ambicionava criar o Museu de Arte Contemporânea de Luanda, afirmou que o projeto foi "roubado pelos franceses", devido a "interesses obscuros".

"Fomos tratados como animais e isso passou despercebido", criticou, acrescentando que "há uma política de violência contra qualquer projeto africano" que faz com que as instituições africanas desistam e deixam de funcionar.

Fernando Alvim sublinhou que faziam projetos "inclusivos e abrangentes, para a maioria dos angolanos", e não "para meia dúzia de intelectuais e grupinhos de diplomatas como as pessoas gostam de fazer nos países africanos".

"Fazíamos um trabalho muito sério que foi combatido justamente por imprimir dignidade as pessoas", reforçou.

O pintor afirmou ainda que só oito anos depois de a Fundação ter sido criada recebeu "por mérito" o estatuto de utilidade publica, mas nunca recebeu dinheiro do Estado, pois tinha meios próprios e apoio de patrocinadores.

Segundo Fernando Alvim, era gerida com um orçamento de 14 mil dólares por mês (12 mil euros), recebendo do Estado apenas um milhão e 100 mil kwanzas por mês (1420 euros) que o ministério da Cultura atribuía a instituições "para distribuir pelos artistas, e não para o funcionamento".

Atualmente, não sabe qual o futuro da Fundação, uma vez que Sindika Dokolo já tinha "parado com tudo".

"É normal, com os problemas que ele tinha", comentou.

Impacto da morte de Sindika Dokolo na investigação Luanda Leaks

O jornalista Luís Garriapa, que integrou a equipa de investigação da série de reportagens SIC/Expresso sobre o escândalo Luanda Leaks, explica de que forma a morte poderá ter impacto na investigação.

Tal como Isabel dos Santos, os negócios de Sindika Dokolo estavam a ser investigados pela justiça angolana, na sequência das revelações do Consórcio Internacional de Jornalistas que ficaram conhecidas como "Luanda Leaks".

Sindika Dokolo e a mulher são suspeitos de terem lesado o Estado angolano em milhões de dólares e foram alvo de arresto de bens e participações sociais em empresas, em dezembro do ano passado, por determinação do Tribunal Provincial de Luanda.

Nascido no antigo Zaire, a 16 de maio de 1972 (atual República Democrática do Congo) Sindika Dokolo frequentou o liceu Saint Louis de Gonzague, em Paris, e prosseguiu os estudos na Universidade Paris Vi Pierre et Marie Curie, iniciando a sua coleção de arte quando tinha 15 anos.

Em outubro do ano passado, a sua Fundação comprou e repatriou para Angola 20 peças de arte que tinham sido levadas de museus angolanos para coleções estrangeiras e preparou-se para entregar ao museu de Kinshasa a primeira peça congolesa recuperada, segundo uma entrevista concedida na altura à agência Lusa.

Crítico dos quase 20 anos do regime do Presidente Joseph Kabila na República Democrática do Congo, Sindika Dokolo esteve cerca de cinco anos no exílio, devido aos processos movidos contra si em Kinshasa, tendo regressado apenas em maio de 2019, já depois da chegada ao poder de Félix Tshisekedi, que tomou posse como chefe de Estado congolês em janeiro.

Em fevereiro de 2016, ainda com José Eduardo dos Santos nas funções de Presidente em Angola, a Fundação Sindika Dokolo entregou ao chefe de Estado, no Palácio Presidencial, em Luanda, duas máscaras e uma estatueta do povo Tchokwe (leste de Angola), que tinham sido saqueadas durante o conflito armado, recuperadas após vários anos de negociação com colecionadores europeus.

Além da justiça angolana, Sindika Dokolo estava também na mira das autoridades holandesas que abriram uma investigação sobre a Exem Energy, sociedade através da qual Sindika Dokolo e Isabel dos Santos são donos de uma posição indireta de 6% na Galp Energia

A abertura da investigação foi noticiada no mês passado pelo jornal holandês "De Volkskrant", parceiro do consórcio jornalístico ICIJ (que no início deste ano publicou as revelações de Luanda Leaks), citando um porta-voz do Ministério Público, que esclareceu que se trata de um inquérito lançado por iniciativa holandesa e não a pedido das autoridades angolanas.

Na altura, o jornal holandês indicava que a participação de Sindika Dokolo na Exem Energy terá sido arrestada e um porta-voz do empresário e marido de Isabel dos Santos afirmou que Dokolo está a colaborar com as autoridades holandesas para refutar o que diz ser "falsas alegações".

Numa entrevista concedida em junho à rádio angolana MFM, Sindika Dokolo afirmava que Isabel dos Santos era "vítima de perseguição política" e garantia que o facto de se ter casado com a filha do ex-Chefe de Estado angolano não lhe permitiu aceder a facilidades aos negócios.

Assumia ainda que assumiu que o casal estaria a tentar negociar com as autoridades angolanas um acordo para pôr fim aos processos de que são alvo.

"Seria do interesse de todos encontrar-se uma saída", afirmou.

A 29 de janeiro de 2020, a De Grisogono, empresa de jóias de Sindika Doikolo anunciou que entrou em falência, depois de não ter conseguido encontrar um comprador.

Entre os processos investigados em Angola está o financiamento com dinheiros públicos da empresa pública de diamantes, Sodiam (200 milhões de dólares, 180 milhões de euros] para a compra da joalharia.

O Consórcio Internacional de Jornalismo de Investigação (ICIJ) revelou, no dia de 19 de janeiro, mais de 715 mil ficheiros, sob o nome de Luanda Leaks, que detalham esquemas financeiros de Isabel dos Santos e Sindika Dokolo, que terão permitido retirar dinheiro do erário público angolano, utilizando paraísos fiscais.