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Polícia angolana nega um morto em confrontos com jovens em Luanda

LUSA

Autoridades dizem que pessoa dada como morta está internada.

A polícia angolana negou esta quarta-feira que uma pessoa tenha morrido durante os confrontos em Luanda com jovens que se queriam manifestar, garantindo ter usado apenas meios não letais para obrigar ao cumprimento da lei.

Em declarações aos jornalistas, o comandante provincial de Luanda, Eduardo Cerqueira, disse que o cidadão que foi dado como morto está internado no hospital Américo Boavida e recebeu tratamento hospitalar.

"Caiu quando fugia da ação policial no sentido de dispersar as pessoas. Nós estávamos a dispersar em dois sentidos, porque não deviam fazer ajuntamentos e porque estavam a fazer desacatos contra as autoridades públicas, arremessando objetos e cometendo uma série de atos que constituem prevaricação à lei", justificou.

Confrontos entre manifestantes e polícia

Centenas de jovens tentaram esta quarta-feira sair à rua em Luanda para uma manifestação proibida pelas autoridades angolanas, que os persegue pelos bairros adjacentes na estrada de Catete.

Antes das 11:00, hora para que estava agendada a manifestação proibida, os jovens tentaram aproximar-se do local combinado, junto ao cemitério de Santa Ana, de onde deveriam sair em direção ao centro da cidade, mas foram impedidos pelas barreiras que a polícia havia instalado na zona.

Gritando palavras de ordem como "a polícia é do povo não é do MPLA" ou cantando o hino nacional angolano numa atitude de confronto com as autoridades, os jovens foram alvo de cargas policiais, com recurso a balas de borracha e gás lacrimogéneo, e fugiram para os bairros adjacentes da zona.

A SIC teve acesso a imagens da manifestação, que mostram as autoridades a recorrerem a gás lacrimogéneo e a canhões de água para dispersar grupos em protestos.

Sem indicar quantos manifestantes foram detidos, Eduardo Cerqueira adiantou à Lusa que "foram recolhidos vários cidadãos com intuito de afastá-los das áreas onde se estavam a registar os factos", incluindo dois jornalistas que foram levados para a esquadra.

"Foram interpelados, foram conduzidos à esquadra e depois de identificados encaminhados para suas casas", afirmou o responsável, declarando que foi dada ordem "imediatamente" para devolução dos meios (câmaras, máquinas fotográficas e telemóveis), embora seja possível que "algumas formalidades ainda não tenham sido cumpridas".

"Queremos cumprir a determinação do Presidente da República que diz que os jornalistas devem exercer a sua atividade, no âmbito da sua liberdade de ação", realçou.

O comandante revelou que registaram-se também "algumas detenções pontuais": um indivíduo que ateou fogo num posto de abastecimento de combustível, dois que pretendiam pegar fogo a pneus junto de outra bomba, um manifestante com mandado de captura por roubo qualificado, outro por posse ilegal de estupefaciente e outro que danificou o vidro de uma viatura.

Segundo o responsável, os restantes foram libertados e "aconselhados a não voltar a aparecer em manifestações que não reúnam os requisitos, em termos da lei, que se realizarem".

Eduardo Cerqueira garantiu que a polícia não usou balas reais. "Isso seria um genocídio", considerou, acrescentando que os feridos resultam da carga "aplicada contra quem aplica carga contra a polícia", a fim de "neutralizar os indivíduos".

"A polícia usou meios não letais próprios para esse tipo de eventos. Todos os estalos e barulhos que ouviram são próprios de elementos não letais. É possível que alguns, como é o caso do gás lacrimogéneo, possa causar algum mal-estar a esta ou aquela pessoa", destacou.

Entre a polícia não há registo de feridos, mas há duas pessoas no hospital, admitiu: o que estava dado como morto, mas que "está fora de perigo", e um outro que está a ser assistido, sem confirmar se se trata do ativista Nito Alves.

O comandante da polícia salientou ainda que "não falhou nada" na atuação policial.

"O que falhou apenas foi a obstinação, a teimosia de alguns cidadãos em manifestar-se quando não reuniam os requisitos que a lei orienta do ponto de vista do estado de calamidade, não do ponto de vista de manifestação", considerou.

ANGOLA ASSINALA 45 ANOS DE INDEPENDÊNCIA

Angola assinala esta quarta-feira 45 anos da independência do país, sendo um dia de feriado nacional, em que estava prevista a realização de uma manifestação, organizada por um grupo de jovens ativistas, para exigir melhores condições de vida e a marcação de uma data para as primeiras eleições autárquicas.

O Governo da Província de Luanda proibiu a realização desta manifestação, evocando diversos motivos, um dos quais o não cumprimento do Decreto Presidencial sobre o estado de calamidade pública, que impede ajuntamentos de mais de cinco pessoas nas ruas, como medida de prevenção e combate à propagação da covid-19.