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Burkina Faso, um país refém dos jihadistas, realiza hoje eleições Presidenciais

LEGNAN KOULA

Um dos países mais pobres do mundo elege hoje o seu Presidente.

Um dos países mais pobres do mundo, o Burkina Faso, capturado por ataques constantes de extremistas islâmicos, elege hoje o seu Presidente, num escrutínio sob apertada vigilância, em que o incumbente, Roch Kaboré, é o favorito.

Os 6,5 milhões de eleitores inscritos podem escolher entre Roch Marc Christian Kaboré, que se bate pela vitória numa só volta, como em 2015, e doze outros candidatos da oposição, que não conseguiu reunir-se em torno de apenas um candidato, ainda que tenha um pacto assinado para o fazer, caso o candidato mais votado não obtenha mais de 50% dos votos.

Dois candidatos da oposição assumem destaque: Zéphirin Diabré, líder histórico da oposição, e Eddie Komboïgo, candidato do partido do ex-presidente Blaise Compaoré, cujo regime é objeto de nostalgia crescente.

"A segurança é o tema principal nestas eleições", considerou em declarações à agência France Presse Mahamoudou Savadogo, investigador na Universidade Gaston Berger, em Ouagadougou.

Enormes extensões do país estão fora do controlo do Estado e os ataques jihadistas são quase diários. Em dois anos, o número de pessoas deslocadas pelas ações de grupos afiliados da Al Qaeda ou do Estado Islâmico (EI) aumentou exponencialmente até atingir um milhão de pessoas, 5% da população. Pelo menos, 1.200 pessoas foram mortas desde 2015.

Estas eleições, presidencial e legislativa, não serão realizadas em, pelo menos, um quinto do território. Não foi possível registar eleitores em quase 1.500 aldeias de entre mais de 8.000 em todo o país, nem em 22 comunas de mais de 300.

O medo de ataques jihadistas no dia da votação está na cabeça de toda a gente. Um número não revelado de tropas foi destacado em todo o país.

A meio da campanha eleitoral, no início de Novembro, 14 soldados foram mortos numa emboscada reivindicada pelo EI no norte, uma das mais pesadas para o exército desde 2015.

Alguns dias mais tarde, sem que tivesse sido estabelecida uma ligação clara, a propaganda do EI publicou uma foto de dois jihadistas a cortar a garganta de um homem vestido com um uniforme do exército. O exército negou um novo ataque.

O Burkina Faso parece ter sido capturado pela violência dos grupos extremistas islâmicos e o Presidente Kaboré não conseguiu travar essa espiral desde os primeiros ataques.

Por outro lado, no Burkina Faso, tal como nos vizinhos Mali e Níger, a violência jihadista também degenerou em confrontos intercomunitários. A amálgama entre as populações fulani e o jihadismo é generalizada.

Váris organizações não-governamentais têm denunciado massacres de civis fulani por milícias pró-governamentais ou pelo exército, e os abusos de uma comunidade levaram a represálias por parte de outra.

A escolha da segurança pelo Estado foi feita, mas o exército burquinabê, mal equipado e mal treinado, acumula mais baixas do que sucessos.

A possibilidade de diálogo com os grupos jihadistas, que tem ganhado corpo no Mali, foi debatida durante a campanha, enfrentando a oposição de Kaboré, apesar de contar com o apoio quase unânime dos seus adversários.

"A ação militar, por si só, nunca foi capaz de derrotar o terrorismo em nenhuma parte do mundo. Para além da ação militar, é preciso que haja outras ações", defendeu Zéphirin Diabré.

Uma das soluções encontradas por Kaboré foi a da criação no início de 2020 de milícias de aldeia, sob a supervisão do Estado, a que chamou Voluntários para a Defesa da Pátria (VDP).

O papel destas milícias nas eleições deste domingo continua por esclarecer: o partido presidencial "poderá vir a ser acusado de utilizar as suas 'tropas' para encorajar ao voto em Kaboré", disse uma fonte diplomática ocidental em Ouagadougou, citada pela AFP.

"Estaremos lá para apoiar o exército e proteger as mesas de voto", afirmou àquela agência um funcionário do VDP no centro do país, reclamando-se politicamente "neutro".

A oposição não conseguiu formar um bloco de apoio a um único candidato, ainda que tenha esse pacto assinado para uma eventual segunda volta, que Kaboré quer evitar.

O Burkina Faso (país dos homens íntegros) é um dos países mais pobres do mundo. Sem acesso ao mar, no coração do Sahel, faz fronteira com a Costa do Marfim, Mali, Níger, Benim, Togo e Gana.

Com uma população de 20,3 milhões de habitantes (dados do Banco Mundial, 2019), a antiga colónia francesa do Alto Volta alberga seis dezenas de grupos étnicos, na sua maioria muçulmanos. Cerca de 60% da população é muçulmana e quase um quarto cristã.

O produto interno bruto do país, um dos menos preparados para enfrentar a pandemia da covid-19, poderá abrandar este ano para 0,7%, segundo um cenário do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), depois de vir a crescer 6,2% em média anual desde 2016.

O Burkina Faso, classificado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) como o 182º mais pobre do mundo, está em risco de se afundar numa situação de fome, de acordo com a ONU.

Entre janeiro e setembro, o número de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda quase triplicou para 3,3 milhões de pessoas, segundo a Oxfam.

O algodão foi destronado em 2009 pelo ouro como líder das exportações do país. A produção caiu em 2019 para 50,3 toneladas devido a ataques jihadistas, mas as receitas aumentaram em face ao aumento dos preços nos mercados mundiais. O sector é responsável por 13,13% do PIB burquinabê.

A agricultura emprega quase 80% da população ativa de acordo com o Banco Mundial. Antes muito procurado pelo turismo internacional, o país foi praticamente colocado de lado enquanto destino turístico devido aos ataques jihadistas.