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Conflito armado em Tigray. ONU diz que situação "está a ficar fora de controlo"

Refugiados que fugiram da zona de Tigray, na Etiópia, em alojamentos temporários em Qadarif, no Sudão.

Nariman El-Mofty

Autoridades etíopes admitiram que as forças federais abriram fogo contra uma equipa da ONU.

A situação em Tigray, Etiópia, palco de um conflito armado, "é extremamente preocupante e volátil e está a ficar fora de controlo, com um impacto terrível sobre os civis", alertou esta quarta-feira a alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Michelle Bachelet desmentiu ainda as indicações feitas pelo Governo etíope na terça-feira à noite, segundo as quais os combates no Tigray, estado etíope no norte do país, terminaram e o conflito se resume a "disparos ocasionais", sendo a situação de segurança apenas uma "questão de polícia".

"Na própria região do Tigray, os combates continuam - apesar de o Governo afirmar o contrário. Temos relatos de que, em particular, nas áreas em torno de cidades como Mekele, Sherero, Axum, Abiy Addi, e nas fronteiras entre as regiões de Amhara e Tigray, os combates continuam entre as forças federais e a TPLF, e milícias afiliadas de ambos os lados", afirmou Bachelet.

Pilhagens, raptos, violência sexual...

A ONU recolheu ainda "informações corroboradas de violações e abusos graves dos direitos humanos - incluindo ataques indiscriminados contra civis e objetos civis, pilhagens, raptos e violência sexual contra mulheres e raparigas".

"Há relatos de recrutamento forçado de jovens tigray para lutarem contra as suas próprias comunidades", revelou ainda a Alta Comissária.

Bachelet sublinhou que as limitações impostas em todas as comunicações se mantêm como "um dos principais obstáculos" e que a ONU não tem conseguido aceder às áreas mais afetadas, pelo que é "incapaz de verificar" aquelas alegações através de missões de averiguação.

"Há uma necessidade urgente de monitorização independente da situação dos direitos humanos na região de Tigray, de todas as medidas necessárias para proteger os civis, e de responsabilização pelas violações", afirmou.

A declaração apresenta-se como uma resposta ao Governo etíope, que na terça-feira rejeitou os pedidos internacionais no sentido de abrir o caminho a uma investigação independente sobre o conflito no Tigray, afirmando que não precisa de uma 'babysitter'.

"A Etiópia é dirigida por um governo forte e funcional, que sabe como dirigir a nação. Não precisa de uma 'babysitter'", afirmou aos jornalistas Redwan Hussein, porta-voz do Governo etíope, numa conferência de imprensa esta terça-feira à noite em Adis Abeba, e divulgada no Youtube.

"Ninguém está mais preocupado connosco do que nós próprios. O que acontece em Tigray aconteceu-nos a nós, aconteceu-nos por nós. A primeira entidade em relação à qual somos responsáveis é o povo etíope. Vamos constituir as provas, e elas estão a ser recolhidas, fotos e vídeos e relatos testemunhais, que serão levadas a tribunal e preparadas de acordo com os standards internacionais e nacionais, para depois serem julgados pelo povo", afirmou aos jornalistas o mesmo responsável.

"Quem tiver quaisquer suspeitas poderá consultar os documentos, verificações e evidências e poderá depois perguntar. Mas colocar de lado o Governo e iniciar uma investigação não será permitido, porque isto não é uma colónia ou uma ex-colónia, isto é uma nação antiga que gere os seus assuntos há milhares de anos", acrescentou Hussein.

Bachelet considerou ainda a situação humanitária como "profundamente angustiante" e afirmou que, "apesar de um acordo entre o Governo e a ONU [há já uma semana], o acesso humanitário sem restrições não tem sido possível".

"Apelo ao Governo [etíope] para que cumpra a promessa do primeiro-ministro [Abiy Ahmed] de assegurar o acesso humanitário, e de garantir o acesso à água, eletricidade e outras necessidades básicas", declarou a responsável da ONU.

"Salvar vidas sem medo de ataques"

Numa aparente referência a um incidente recente em que uma missão de ajuda humanitária da ONU foi impedida a tiro de aceder a uma zona do Tigray, tendo os seus responsáveis sido detidos e entretanto libertados, Bachelet exortou o Governo etíope a "assegurar que os atores humanitários possam fazer o seu trabalho de salvamento de vidas sem medo de ataques, e a assegurar que os responsáveis por ataques contra os trabalhadores humanitários sejam responsabilizados de acordo com as leis e normas internacionais de direitos humanos e humanitárias".

As autoridades etíopes admitiram na terça-feira que as forças federais abriram fogo no domingo contra uma equipa da ONU que tentava alcançar uma zona da região de Tigray. Redwan Hussein confirmou o ataque e detenção dos funcionários das Nações Unidas, culpando-os de tentar alcançar áreas onde "não deveriam ir", ultrapassando "dois postos de controlo", antes de serem detidos quando tentavam passar um terceiro.

Michelle Bachelet revelou ainda que "noutras partes da Etiópia, há inúmeros relatos de discriminação étnicos contra tigray, incluindo em Adis Abeba".

"Temos relatos de despedimentos de empregos - inclusive na função pública -, assédio a jornalistas tigray, e discurso de ódio contra os tigray. Tais ações discriminatórias são profundamente injustas, mas estão também a fomentar a divisão e a lançar as sementes de uma maior instabilidade e conflito. Exorto o Governo a tomar medidas imediatas para pôr fim a tal discriminação", afirmou.

Finalmente, a Alta Responsável para os Direitos Humanos manifestou as "preocupações" da ONU com "o facto de ter havido um aumento da violência intercomunitária nas últimas semanas noutras partes da Etiópia, particularmente nas regiões de Amhara, Benishangul-Gumuz, Somali, Afar e Oromia, o que alegadamente resultou em fatalidades".

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