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Itália em crise política com demissão de duas ministras de partido da coligação

Remo Casilli

Com estas demissões, o primeiro-ministro, Giuseppe Conte, fica sem a maioria no Senado.

Duas ministras italianas apresentaram esta quarta-feira a demissão e abriram uma crise política, dado que ambas pertencem ao partido Itália Viva (IV), integrados na coligação governamental, deixando o primeiro-ministro Giuseppe Conte sem a maioria no Senado.

Numa conferência de imprensa, o presidente do Itália Viva, o antigo primeiro-ministro Matteo Renzi, anunciou a demissão das ministras da Agricultura, Teresa Bellanova, e da Família, Elena Bonetti.

Renzi tem criticado a gestão, que considera "solitária", da pandemia e discorda do plano idealizado pelo primeiro-ministro para absorver e aplicar os mais de 200 mil milhões de euros que a União Europeia (UE) deverá disponibilizar em breve no quadro do relançamento económico e do combate à crise sanitária.

A discórdia levou o Governo de Conte a aprovar terça-feira, em Conselho de Ministros, uma nova versão do plano, em que as duas ministras do Itália Viva se abstiveram.

"Não permitiremos a ninguém ter plenos poderes. Isso significa que o hábito de governar com decretos-leis que se transformam noutros decretos-leis [...] representa, para nós, um atentado às regras de jogo. Pedimos o respeito pelas regras democráticas", afirmou Renzi, que também excluiu qualquer apoio à oposição da direita italiana. "Não temos preconceitos nem sobre os nomes, nem sobre as fórmulas", acrescentou Renzi, parecendo assim aberto a um possível novo Governo liderado por Conte.

Ao mesmo tempo, descartou qualquer apoio à oposição de direita e, em particular, à extrema-direita da Liga Norte, de Matteo Salvini.

"Jamais daremos vida a um governo com as forças da direita soberanista contra quem combatemos", frisou.

Demissões surgem numa altura em que Itália está a ser atingida fortemente pela pandemia

O Governo de Conte estava há várias semanas a ser alvo de críticas do líder do Itália Viva, pequeno partido cujo apoio é crucial para a sobrevivência do executivo.

As demissões surgem numa altura em que Itália está a ser atingida fortemente pela pandemia de covid-19, tendo hoje ultrapassado as 80 mil mortes em mais de 2,3 milhões de casos de contágio desde o início da crise sanitária, em fevereiro de 2020, tendo o Governo anunciado hoje, paralelamente, a prorrogação do estado de emergência no país até 30 de abril.

E foi precisamente esse argumento utilizado esta quarta-feira por Conte antes da conferência de imprensa de Renzi, que considerou que uma crise política não seria compreendida pela população italiana, sublinhando que Itália está a enfrentar uma situação "tão difícil com tantos desafios".

Na mesma ocasião, Conte disse estar a "trabalhar no desenvolvimento de um programa para o final da legislatura" e apelou a que se trabalhe "de forma construtiva" para se "encontrar uma melhor coesão das forças da maioria".

Na altura Conte já tinha conhecimento de que Renzi convocara para hoje à tarde uma conferência de imprensa em que iria anunciar a demissão dos dois ministros que representam o seu partido e a saída deste da coligação.

Como cenário possível, Conte poderá pedir um voto de confiança ao Parlamento, esperando obter votos suficientes da oposição para compensar a saída do partido de Renzi, embora a opção pareça pouco provável, segundo a agência France-Presse.

Sem os 18 senadores da Itália Viva, Conte precisará de novos apoios no Senado, enquanto na câmara baixa a sua maioria é suficiente.

Uma outra hipótese seria um novo governo de Conte. O primeiro-ministro poderia demitir-se e obter um novo mandato do Presidente italiano, Sergio Mattarella, para uma equipa renovada. Conte esteve reunido esta quarta-feira a seu pedido com o chefe de Estado.

Terceira economia da zona euro e o primeiro país europeu a ser atingido duramente pela epidemia, Itália enfrenta a sua pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial.

A crise governamental poderá ainda dificultar a aprovação de um novo plano de ajudas públicas de vários milhares de milhões de euros para apoiar os setores mais afetados pelos confinamentos para travar a progressão do novo coronavírus.