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França abre arquivos relativos ao genocídio em Ruanda ao público em geral

Centenas de caveiras das vítimas do genocídio no Ruanda, num memorial na igreja de Ntarama, no sul de Kigali.

ARMANDO FRANCA

Os documentos incluem arquivos do ex-Presidente francês François Mitterrand.

A França abriu esta quarta-feira, ao público em geral, milhares de arquivos relativos à situação no Ruanda entre 1990 e 1994, 27 anos após o início do genocídio dos tutsis naquele país, segundo uma publicação no Jornal Oficial.

Trata-se de arquivos do ex-Presidente francês François Mitterrand e também do seu então primeiro-ministro Edouard Balladur.

Vários desses documentos, em particular telegramas diplomáticos e notas confidenciais, serviram de base a um relatório sobre o papel de França no Ruanda entre 1990 e 1994, apresentado por uma comissão de historiadores no final de março.

O relatório Duclert faz uma retrospetiva do envolvimento francês nos acontecimentos desses quatro anos decisivos, que levaram ao genocídio de 1994.

Os historiadores sublinharam, em particular, a responsabilidade de François Mitterrand e da sua equipa particular, que regularmente ignorou as várias advertências sobre os riscos de genocídio.

No entanto, o documento iliba a França de cumplicidade no massacre que deixou mais de 800.000 mortos, principalmente da etnia tutsi e os hutus que tentaram protegê-los.

Várias cerimónias estão planeadas, especialmente em França, para marcar o 27.º aniversário do genocídio.

Após um momento de meditação e uma deposição de flores em Paris às 10:00 (09:00 em Lisboa), vários discursos oficiais devem se seguir-se e um minuto de silêncio deve ser observado ao meio-dia.

Ao apresentar o relatório Duclert, Emmanuel Macron indicou que esperava uma reaproximação "irreversível" com Kigali.

Mesmo que as relações entre os dois países tenham melhorado com a chegada ao poder do Presidente francês em 2017, o papel de França no Ruanda continua a ser um assunto explosivo.

É também tema de um violento e apaixonado debate entre investigadores, académicos e políticos.

O genocídio teve início a 07 de abril de 1994 após os assassínios, no dia anterior, dos Presidentes do Ruanda, Juvénal Habyarimana (Hutu), e do Burundi, Cyprien Ntaryamira (Hutu), quando o avião em que viajavam foi abatido sobre Kigali.

A violência extrema causou a morte de cerca de 800.000 Tutsis e Hutus moderados em cerca de cem dias, um dos piores assassínios étnicos da história recente.