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Regresso ao futuro

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"Queremos assegurar que os novos líderes estão unidos por um conjunto de valores que torna claro que a liderança não é sobre ego" (David Simas, Presidente da Fundação Obama)

Joe Biden veio à Europa fazer juras pelo “regresso da América”.

Com razão: depois de quatro anos lamentáveis de um Presidente que não estava à altura do cargo que ocupava (e tudo fez para desfazer alianças de várias décadas e destratar amigos e parceiros fiáveis e duráveis), a mudança na Casa Branca de Trump para Biden gerou alívio profundo deste lado Atlântico, abrindo um novo capítulo de esperança.

Mas o “America is Back” que o sucessor de Trump não se cansou de repetir no périplo europeu da semana passada (Cornualha-Bruxelas-Genebra) não representa o regresso que muitos imaginam ou desejam.

A explicação é mais simples do que parece: porque na política internacional, tal como na vida, não é possível fazer “rewind”. Não dá mesmo para voltar para trás.

A América que Joe Biden herdou não são os EUA pós-Obama: são os EUA pós-Trump. Isso quer dizer que uma percentagem muito significativa (não a maioria, mas uma fatia próxima dos 40%) do eleitorado acredita piamente que as eleições de novembro 2020 foram roubadas e que Joe Biden é um presidente ilegítimo.

E é nessa permanente contradição que os EUA de meados de 2021 continuam a navegar: Biden tem sido um Presidente globalmente bem sucedido (com um apoio popular solidamente acima dos 50%, algo que Trump nunca teve, nem na noite em que bateu Hillary, muito menos nos quatro anos da sua presidência falhada), mas algures entre 40 e 60 milhões de americanos (ou seja, uma parte maioritária do eleitorado Trump) insiste numa posição negacionista, algures entre o ressabiamento eleitoral e um comportamento antidemocrático, próximo da insurreição.

A mesma América que legitimou um novo Presidente que está, de forma consistente e estratégica, a promover a recuperação interna e a regeneração do prestígio externo dos EUA é, também, capaz de acolher no seu seio uma resistêntia populista, identitária e demagógica, que mantém Donald Trump como seu campeão e impede qualquer tipo de alternativa mais democrática e institucional que possa surgir no Partido Republicano.

Isso tem consequências. Biden quer o “regresso da América” à liderança do palco internacional. Mas não se trata de um “regresso ao passado”. Será mais um “regresso ao futuro”.

Sem os voos espetaculares do DeLorean conduzido por Michael J. Fox (Marty McFly) na trilogia dos anos 80, bem mais com doses prudentes de pragmatismo político, talvez a maior arte que a experiência de quase meio século de Joe Biden tem revelado.

RECUPERAÇÃO INTERNA, REGENERAÇÃO EXTERNA

Biden apostou, nos primeiros quatro meses da sua presidência, na recuperação da frente interna: excedeu objetivos e expectativas na vacinação, iniciou estratégia de exportação para assumir uma “diplomacia de vacinas”, criou bases para a retoma económica, que tem vindo a colher frutos (perspetiva de crescimento próximo dos 7% em 2021, mais do dobro dos parceiros europeus e acima da China pela primeira vez em três décadas), ainda que a criação mensal de emprego nos EUA ainda não tenha atingido a fasquia simbólica de um milhão.

Para lá dos números, Biden mostrou foco e propósito no modo como pretende concretizar a recuperação: os três megaplanos federais que apresentou visam a promoção da justiça social e da equidade racial, apoiam as famílias e assumem foco nos mais desfavorecidos.

A agenda do American Recovery Plan (1,9 biliões de dólares, já aprovado e em marcha), do American Jobs Plan (2,3 biliões de dólares, Plano de Infraestruturas e criação de empregos pelas energias limpas, com 90% dos novos postos de trabalho para americanos sem licenciatura, em fase decisiva de negociações no Congresso) e do American Families Plan (1,8 biliões de dólares, apoio às famílias desfavorecidas, à proteção social e educacional das crianças) mostra uma visão de esquerda social-democrata, mais integrada na tradição política europeia e que faz a ponte entre a herança Obama/Hillary e as exigências da esquerda progressista.

Mas a Presidência Biden está longe de ter um caminho fácil. As feridas do ataque à democracia de quatro anos de um Presidente inaceitável estão lá. A inominável invasão do Capitólio de 6 de janeiro seria momento redentor, caso a sociedade americana tivesse maior saúde democrática.

Infelizmente, não é o caso. O negacionismo que domina o atual Partido Republicano faz com que nem sequer tenha havido condições para criar uma comissão no Congresso que apurasse todos os detalhes que levaram aquele momento impensável.

Grupos conspiracionistas (algures entre o delirante e o simplesmente mentiroso) têm conseguido injetar no “core” republicano lixo negacionista que coloca desculpas do estilo “não se sabe bem se eram mesmo apoiantes de Trump ou ativistas Black Lives Matter infiltrados”, referindo-se a quem cometeu os atos criminosos de invadir os espaços do Capitólio.

Ora, qualquer análise às fotografias, aos vídeos, aos sons emitidos naquele dia inominável faz-nos ter total certeza que o “drive” daquele acontecimento teve a ver com apoiantes de Trump que queriam inverter o processo eleitoral e obrigar o ex-vice-presidente Pence a impedir a confirmação, na sessão conjunta do Capitólio, da eleição de Joe Biden.

LEGALIZAR O GOLPE PARA COMPENSAR MINORIA CRÓNICA

Em vez de caminhar para uma via de reconstrução democrática, de modo a criar uma alternativa presidencial credível para 2024, o Partifo Republicano tem-se fechado ainda mais no nicho trumpiano. Parece ser uma reação natural, perante o entusiasmo que as bases de Donald Trump continuar a ter, mas do ponto de vista eleitoral não faz grande sentido.

O mito da força eleitoral de Trump não resiste ao teste da realidade: em 2016, foi eleito com menos três milhões de votos que a adversária; em 2020, perdeu para Biden por sete milhões e falhou o duelo com o democrata em quase todos os estados decisivos, exceto a Florida.

Trump conseguiu ser o primeiro Presidente a falhar uma reeleição em três décadas. As derrotas republicanas na Geórgia e no Arizona deviam, de resto, gerar sinais de alarme nos estrategas do GOP.

Mas nada disso está a ocorrer.

Se a eleição de novembro de 2020 nos voltou a mostrar que a via populista não dá aos republicanos a maioria dos votos a nível nacional, em vez de iniciarem um caminho mais inclusivo, para poder alargar a base eleitoral, o que os republicanos estão a fazer – inspirados pela tática trumpiana antidemocrática e operacionalizada pelas maiorias de legislaturas estaduais – é legalizar o golpe eleitoral.

Como? Através da supressão do voto para os segmentos que deram inesperadas vitórias a Joe Biden sobre Donald Trump em estados como a Geórgia e o Arizona: os negros, os hispânicos, os eleitores com menor rendimento. Parece estranho falar-se de barrar, através da lei, o acesso ao voto, mas é isso mesmo que está a acontecer, promovido por legisladores republicanos – reduzindo os locais de voto, colocando-os mais longe de quem mora em locais desfavorecidos, criando situações em que só depois de horas de espera se consiga votar, multando quem dá água ou comida a quem está nas filas, impedindo proteções legais a quem queira votar sem perder o emprego.

AMÉRICA DUAL E ASSIMÉTRICA

É esta América dual (maioria de 50 e tal por cento a apoiar a via regeneradora do Presidente Biden e imensa minoria de 40 e poucos por cento saudosa do populismo antidemocrático do ex-Presidente Trump), capaz do melhor (abertura ao outro, compromisso multilateral), mas também do pior (recusa em ver o ataque ao Capitólio como algo condenável e que não pode ser repetido)

Joe Biden veio à Europa proclamar o “regresso da América”: liderança das democracias para barrar o avanço das autocracias, travagem da China (“desafio sistémico”) e da Rússia (“ameaça” regional do ponto de vista militar, mas globalizada pela via cibernética), reconciliação com aliados europeus e convocação de países como a Índia, a Austrália ou a Coreia do Sul para contrapor ao poderio da China.

A NATO terá que decidir internamente se a China, não estando no Atlântico, pode mesmo ser colocada como ameaça comum. A Rússia talvez fique menos próxima da China e menos desconfiada dos EUA depois da conversa Biden/Putin de Genebra.

Mas que ninguém espere um “regresso ao passado” da América dominante e confiável.

A “doença americana” explorada e agravada por Trump está lá. E os receios de que possa voltar a ser poder na Casa Branca levam a que o “regresso ao futuro”, com Biden, já seja um alívio retemperador.

A PÁGINA DE GERMANO ALMEIDA NA SIC NOTÍCIAS

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    Há 7 anos no Futuro Hoje mostrámos pela primeira vez um pacemaker que se instala dentro do coração. Em Portugal há muitas pessoas a quem este aparelho salvou a vida. Só o Dr. Diogo Cavaco, cardiologista que introduziu esta técnica no país, já instalou mais de cem aparelhos destes.