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Oito pontos para perceber o conflito entre Rússia e Ucrânia: história, mitos e medos

Oito pontos para perceber o conflito entre Rússia e Ucrânia: história, mitos e medos

A Rússia desencadeou a crise sobre a Ucrânia numa altura em que a NATO se prepara para aprovar um novo conceito estratégico na cimeira de Madrid, em junho deste ano.

Os povos da Rússia e da Ucrânia têm uma relação histórica a que o Presidente russo, Vladimir Putin, recorre para reclamar que deviam constituir uma só nação por terem a mesma origem.

Mas as etapas mais recentes do conflito entre os dois países estão relacionadas com a dissolução da União Soviética (1922-1991), de que a Ucrânia fez parte, e da aproximação de Kiev ao Ocidente.

Questões mais relevantes de enquadramento do conflito:

Putin: “um só povo, uma só nação”

“Acredito que os russos e os ucranianos são um só povo. (…) Uma só nação, de facto”.

A frase foi proferida por Vladimir Putin em 1999, numa entrevista ao realizador norte-americano Oliver Stone e ilustra o sentimento do líder russo em relação à Ucrânia.

Dois anos depois, Putin publicou um longo ensaio com o título “Sobre a Unidade Histórica de Russos e Ucranianos” em que defendeu que os dois povos (e os bielorrussos) têm a mesma ascendência e foram separados por forças externas.

“Estou confiante de que a verdadeira soberania da Ucrânia só é possível em parceria com a Rússia. (…) Juntos sempre fomos e seremos muitas vezes mais fortes e mais bem-sucedidos. Pois somos um só povo”, escreveu Putin.

Mito russo

Esta perspetiva é contestada por muitas pessoas dentro da Ucrânia, mas também fora: uma unidade criada pelo serviço externo da União Europeia (UE) para combater as campanhas de desinformação de Moscovo abordou esta questão esta semana, considerando tratar-se de “um dos mais antigos e profundamente enraizados mitos utilizados contra a Ucrânia”.

“Embora tenham raízes comuns (…), não é verdade que os ucranianos e os russos sejam uma nação 800 anos mais tarde. Apesar de longos períodos de domínio estrangeiro, a Ucrânia tem uma forte cultura e identidade nacional, e é um país soberano”, disse o projeto EUvsDisinfoa.

“A noção de uma ‘nação totalmente russa’ sem fronteiras políticas é uma construção ideológica que remonta aos tempos imperiais e tem sido utilizada como um instrumento para minar a soberania e a identidade nacional ucranianas. Desde 2014, o Governo russo tem cultivado este mito com renovado vigor numa tentativa de racionalizar e justificar a sua agressão militar contra a Ucrânia”, acrescentou.

Do império russo à independência

Depois de vários períodos de uma História comum a russos e ucranianos, a Ucrânia integrou o império russo (1721-1917) antes de se tornar uma república soviética, no rescaldo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Com o fim da União Soviética, em 1991, tornou-se independente e aproximou-se do Ocidente, tendo sido considerada como a ex-república soviética com mais hipóteses de alcançar a integração europeia.

Vários analistas têm dito que Putin, e muitos russos, não aceitam esta “separação” e a agência Associated Press (AP) escreveu recentemente que, desde que chegou ao poder em 2000, o líder russo “tem trabalhado firme e sistematicamente para inverter o que considera ser a humilhante dissolução da União Soviética há 30 anos”.

Um artigo do site Politico referiu hoje que “2022, o centenário da fundação da União Soviética, seria o momento perfeito para [Putin] avançar contra a Ucrânia”.

Integração europeia?

Em 2008, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO, na sigla em inglês) concordou que a Ucrânia e a Geórgia poderiam vir a tornar-se membros da Aliança.

No mesmo ano, com José Manuel Durão Barroso a presidir à Comissão Europeia (2004-2014), a União Europeia (UE) e a Ucrânia iniciaram conversações para a assinatura de um acordo de associação.

No comunicado sobre a iniciativa, as duas partes proclamaram que “o futuro da Ucrânia está na Europa”.

Euromaidan, Crimeia e Donbass

Mas, em 21 de novembro de 2013, uma semana antes da assinatura do acordo no Conselho Europeu de Vilnius, o então Presidente ucraniano pró-Moscovo, Viktor Yanukovytch, suspendeu o processo e anunciou que a Ucrânia iria aderir à União Aduaneira Eurasiática (a revista britânica The Economist escreveu, na altura, que nunca a Ucrânia tinha estado tão próxima de “atravessar a fronteira entre a Rússia e o Ocidente”).

A decisão gerou uma onda de protestos conhecida por “Euromaidan” – uma ‘ashtag’ (etiqueta) que inclui a palavra que na Ucrânia significa “praça” para identificar as manifestações da Praça da Independência, em Kiev.

Apesar da repressão brutal, com mais de uma centena de mortos, Yanukovytch acabou por cair e refugiou-se na Rússia em fevereiro de 2014.

Ao mesmo tempo, a Rússia invadiu e anexou a península ucraniana da Crimeia. E na região de Donbass (leste) eclodiu uma guerra separatista com apoio russo que já provocou cerca de 14.000 mortos e 1,5 milhões de deslocados, segundo a ONU.

Perante estes acontecimentos, o acordo de associação UE-Ucrânia só foi concluído em junho de 2014, e entrou em vigor em 1 de setembro de 2017.

Cisma na Igreja Ortodoxa

Em 5 de janeiro de 2019, o patriarca ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I, outorgou a independência à Igreja Ortodoxa da Ucrânia, separando-se formalmente da Igreja Ortodoxa Russa ao fim de 332 anos.

A Rússia acusou os Estados Unidos de encorajarem a rutura para enfraquecer Moscovo.

NATO e UE “à porta” de 6% da Rússia

Fundada em 1949 por 12 países, incluindo Portugal, a NATO expandiu-se para Leste depois da dissolução da União Soviética.

Polónia, Hungria e República Checa aderiram em 1999, apesar dos protestos da Rússia.

Seguiram-se outros países da antiga esfera soviética, mas Ucrânia, Geórgia e Bósnia-Herzegovina ainda não fazem parte, apesar de a NATO ter reconhecido oficialmente as respetivas candidaturas.

A NATO conta agora com 30 membros, alguns dos quais fazem fronteira com a Rússia: Noruega (membro fundador), Polónia (fronteira com Kaliningrado, no Mar Báltico), e Estónia, Letónia e Lituânia (aderiram em 2004).

“A Rússia diz que a NATO está a cercar a Rússia. De facto, apenas 6% das fronteiras da Rússia tocam os países da NATO”, disse o secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, há uma semana, numa palestra em Berlim.

Também a UE integrou já alguns dos antigos membros da União Soviética: Eslováquia, Eslovénia, Estónia, Hungria, Letónia, Lituânia, Polónia e República Checa desde 2004, Bulgária e Roménia desde 2007, e a Croácia desde 2013.

O ‘timing’ de uma crise

A Rússia desencadeou a crise sobre a Ucrânia numa altura em que a NATO se prepara para aprovar um novo conceito estratégico na cimeira de Madrid, em junho deste ano, para substituir o documento aprovado em Lisboa, em 2010.

Também a UE está a finalizar a discussão sobre a chamada “Bússola Estratégica”, a nova política de segurança e defesa que o Conselho Europeu deverá adotar na cimeira de março, em Bruxelas.

“A Europa está em perigo. Antes, quando se dizia isto, alguns riam-se, mas agora já se riem menos”, disse na terça-feira, no Parlamento Europeu, o Alto Representante da UE para a Política Externa e de Segurança, Josep Borrell.

Uns dias antes, Antony Blinken descreveu a crise de um modo ainda mais dramático: “É maior do que um conflito entre dois países. É maior do que a Rússia e a NATO. É uma crise com consequências globais, e requer atenção e ação globais”.

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