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Primeiro-ministro da Grécia assume “erro” após escutas a opositor do Governo

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Os serviços de inteligência gregos colocaram escutas no telemóvel do líder do segundo maior partido da oposição.

O primeiro-ministro grego assegurou, esta segunda-feira, não ter tido conhecimento das escutas que os serviços de informações efetuavam há três meses ao telemóvel de um político da oposição, e insistiu que não teria permitido esta ação ilegal caso estivesse informado.

Kyriakos Mitsotakis, que enfrenta eleições em 2023, emitiu estas declarações através de um discurso ao país transmitido pela televisão, três dias após um escândalo sobre escutas telefónicas que implicou a demissão do chefe dos serviços nacionais de informações (EYP), Panagiotis Kontoleon, e de Grigoris Dimitriadis, secretário-geral do gabinete do primeiro-ministro.

“O que aconteceu pode estar em concordância com o espírito da lei, mas foi errado”, disse o primeiro-ministro conservador e líder da Nova Democracia (ND), a principal formação da Direita grega e que garante uma maioria no Parlamento.

O EYP responde diretamente ao gabinete do primeiro-ministro, uma alteração imposta pelo próprio Mitsotakis após a vitória eleitoral nas legislativas de 2019.

Mitsotakis disse que os telemóveis de Nikos Androulakis, que concorreu à liderança do Movimento Socialista pan-helénico (PASOK, social-democrata) nesse período, foram colocados sob “vigilância legal” a partir de setembro de 2021 e durante três meses.

As gravações foram interrompidas “automaticamente” poucos dias antes de Androulakis vencer a corrida para a liderança do partido, disse o governante, mas sem especificar o motivo da medida que visou o político da oposição.

“Formalmente adequado mas politicamente inaceitável”

“Mesmo que tudo tenha decorrido legalmente, os serviços nacionais de informações subestimaram a dimensão política desta ação particular”, considerou Mitsotakis.

“Foi formalmente adequado mas politicamente inaceitável. Não deveria ter acontecido, e provocou reações negativas dos cidadãos face à confiança nos serviços de segurança nacional”, prosseguiu.

O primeiro-ministro também considerou ter sido inadequada a forma como foi gerida esta questão, indicando que o chefe do EYP foi “imediatamente afastado” e que o secretário-geral do gabinete do primeiro-ministro “assumiu uma objetiva responsabilidade política” ao demitir-se.

Na sexta-feira, o gabinete do primeiro-ministro não forneceu qualquer motivo para a demissão de Dimitriadis. Mas um responsável oficial citado pela agência noticiosa Associated Press (AP) insistiu estar “relacionada com o clima tóxico que se formou em torno dele” e que não tinha qualquer relação com a ação de espionagem que visou o telemóvel do político do PASOK.

“Nunca esperei que o Governo grego me colocasse sob escuta”

No dia 26 de julho, Androulakis apresentou uma queixa junto dos procuradores do Supremo Tribunal, ao denunciar que tinha existido uma tentativa de espiar o seu telemóvel através do programa de spyware designado Predator.

O político da oposição, também membro do Parlamento Europeu, disse que teve conhecimento da tentativa de espionagem pelo Predator após ter sido informado poucos dias antes pelo serviço de cibersegurança da assembleia europeia.

Androulakis era considerado o favorito à sucessão da liderança do PASOK. Atual dirigente do terceiro maior partido da Grécia, deverá afirmar-se como a balança de poder nas próximas legislativas, previstas para meados de 2023 e caso nenhum partido consiga garantir a maioria absoluta que lhe permita governar sem coligações, como sugerem as atuais sondagens.

“Nunca esperei que o Governo grego me colocasse sob escuta através destas práticas obscuras”, disse Androulakis na sexta-feira após o anúncio das demissões.

Em abril, o jornalista Thanassis Koukakis, especialista em questões económicas, disse ter sido informado pelo grupo de direitos digitais Citizen Lab de que esteve sob vigilância do software Predator entre julho e setembro de 2021.

O Comité para a proteção de jornalistas exigiu então uma “investigação rápida e exaustiva (...) para determinar quem ordenou essa monitorização e a sua responsabilização”.

O Governo conservador helénico tem negado a utilização do Predator e na sua alocução desta segunda-feira, Mitsotakis não mencionou o nome do jornalista.

O primeiro-ministro prometeu alterações na forma como opera o EYP, incluindo um maior controlo parlamentar, e mudanças internas para garantir “transparência, treino pessoal e controlos internos”.

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