Mundo

Começa o julgamento ao acidente de comboio na Galiza que matou 80 pessoas

Começa o julgamento ao acidente de comboio na Galiza que matou 80 pessoas
MIGUEL RIOPA

Os dois arguidos estão acusados do homicídio de 80 pessoas por imprudência profissional, por 145 lesões pelo mesmo motivo e por um crime de danos.

Espanha começou a julgar o acidente de comboio que há nove anos matou 80 pessoas em Santiago de Compostela, com a audição do maquinista Francisco José Garzón Amo, que denunciou as falhas de sinalização na linha ferroviária.

O comboio de alta velocidade que Francisco José Garzón Amo conduzia a 24 de julho de 2013 descarrilou numa curva à entrada da cidade de Santiago de Compostela, na Galiza, e embateu numa parede de betão quando seguia a 191 quilómetros por hora (km/h), mais do dobro do limite de 80 km/h para aquele ponto da via.

"Não havia nenhum sinal para restringir a velocidade. Não havia nenhuma limitação, nem nenhum sinal, nem nenhuma baliza. Não havia nada de nada", disse o maquinista.

Segundo afirmou, não havia sinalização para uma redução faseada da velocidade até chegar à curva fatal, onde estava colocado, subitamente, um aviso de 80 km/h. "Não consegui travar. É praticamente impossível passar naquele ponto de 200 para 80, nesse ponto concreto", afirmou Francisco Garzón Amo, que acrescentou que "é absurdo" alguém pensar que poderia ter reduzido a velocidade naquele momento e garantiu que "evidentemente" a teria diminuído se houvesse sinalização nesse sentido.

Questionado sobre, se hoje, com os meios técnicos e sinalização aplicados naquela via, seria possível ocorrer o mesmo acidente, respondeu que "não, impossível", mas afirmou que esses sistemas não são novos e já existiam há nove anos, só não tinham sido adotados naquela linha ferroviária.

O maquinista, que só respondeu a perguntas do seu advogado, disse ainda que não tinha tido formação na via em que ocorreu o acidente, a via 1 que liga as cidades de Santiago de Compostela a Ourense, ambas na região espanhola da Galiza, mas apenas numa outra, que faz a mesma ligação, conhecida como via 2. Por outro lado, admitiu ter perdido "a consciência de localização" quando recebeu uma chamada de serviço, que as regras o obrigavam a atender, acreditando estar num túnel anterior àquele em que estava quando o comboio se aproximou da curva do acidente.

O maquinista é um dos dois acusados neste caso, cujo julgamento arrancou formalmente na quarta-feira, com a definição de questões formais de funcionamento, tendo hoje sido iniciadas as audições dos réus. Além do maquinista, está a ser julgado o responsável, na altura do acidente, pela segurança na circulação da empresa Adif (que geria a infraestrutura), Andrés Cortabitarte, que só deverá ser ouvido pelo tribunal na próxima semana, após o seu advogado de defesa ter pedido um adiamento depois de o réu ter sido agredido por uma vítima do acidente na quarta-feira. Os dois estão acusados do homicídio de 80 pessoas por imprudência profissional, por 145 lesões pelo mesmo motivo e por um crime de danos.

O Ministério Público pede quatro anos de prisão para cada um dos acusados, a proibição do maquinista exercer a profissão durante o mesmo tempo de condenação e a proibição de Andrés Cortabitarte exercer qualquer profissão que implique gestão, segurança ou responsabilidade deste tipo de infraestruturas. Mas também pede mais de 57,8 milhões de euros para reparação de danos e prejuízos.

O julgamento do "caso Alvia", o nome da empresa de comboios que assegurava a ligação, entre Madrid e Santiago de Compostela, vai demorar, previsivelmente, nove meses, por terem sido aceites 522 testemunhas e declarações de cerca de 150 peritos.

Últimas Notícias
Mais Vistos