Opinião

Coisas do Diabo

"Coisas do Diabo" é uma obra que não está acabada e que, portanto, enquanto livro, nunca verá a luz do dia. O manuscrito, que encontrei perdido num caixote, começou a ser escrito corria, ainda, a guerra colonial. Era um romance imberbe e inocente, uma história de amor como tantas outras – mas muito bem escrita.

Anos mais tarde, o autor, já mais maduro e vivido, voltou a pegar na caneta - literalmente - e deu a volta ao texto. A inocência já não estava lá, antes a amargura, alguma dor, muita resiliência. Só ficou, intacta, a história de amor.

Nos últimos três anos, o "Diabo" andou por aí, nos discursos de Governo, parceiros dele e oposição.

O PSD anunciou que vinha o Diabo, o PS prega que afinal o Diabo não apareceu, Jerónimo diz que não se pode estar bem "com Deus e o Diabo ao mesmo tempo", mas explica, "independentemente de quem seja o Diabo". Portanto, Jerónimo não põe Deus em causa. Só o Diabo. Que não veio. Ou veio, conforme o ponto de vista. Até Ferreira Leite sentencia que o PSD faz muito bem em vender "a alma ao Diabo" para tirar a esquerda do poder, ou melhor, do suporte ao Governo.

Diabo seria uma das palavras do ano não fosse dar-se o caso de toda a gente saber – menos Jerónimo – o que é o Diabo.

Isto do Diabo é, portanto, muito relativo; para o PCP, estamos esclarecidos, o Diabo não é personagem conhecida. Para o BE, o Diabo é a direita; para o PS o Diabo é o PSD; para o PSD o Diabo não é o PS, mas os parceiros da esquerda; para o CDS o Diabo são eles todos, o PS, o PCP, o BE e até o PSD, já que, diz Cristas, o CDS é o "único voto" que não vai parar a Costa.

Mas que demónios nos atormentaram, enquanto povo, neste ano que agora acaba?

O demónio das greves e das lutas de professores, pessoal não-docente, enfermeiros, médicos, técnicos de diagnóstico e terapêutica, estivadores, guardas prisionais, funcionários públicos em geral e outros funcionários públicos em particular (juízes e magistrados, por exemplo, que à segunda, quarta e sexta são titulares de órgão de soberania, e à terça, quinta e sábado funcionários públicos dispostos a fazer greve pela revisão e progressão nas carreiras), revisores e maquinistas, não sei se me escapa alguém mas há-de escapar com certeza.

Nem quero contar os dias de greve. Justa, claro. Mas que prejudicam os únicos que não podem fazer nada: doentes, alunos e pais, familiares de presos, utentes dos transportes, cidadãos com questões na justiça, a economia exportadora de um país. A nós todos, os cidadãos.

O diabo de ministras que choram no Parlamento, de primeiros-ministros que "não se emocionam" perante as tragédias, e as falhas. As falhas do Estado, aquele que nos deve proteger e apoiar, mas que nos tem falhado uma e outra vez; em Pedrógão, nos incêndios de Outubro, em Tancos, no roubo das glock, em Borba, num helicóptero do INEM. E em tantas outras coisas mais "pequenas".

Um Estado que nos diaboliza e desconfia de nós; que é fraco com os fortes e forte contra os fracos; que leva metade da riqueza em impostos e não o devolve em serviços; que nos trata como malfeitores quando não cumprimos e se porta como vigarista quando é ele que não cumpre;

O diabo das lutas partidárias e dois sound-bites; e da pouca consistência entre o discurso e a prática; deputados inflamados no Parlamento, que depois marcam presenças uns pelos outros, falsificam viagens que nunca fizeram, alteram curriculum e fornecem "aos serviços" moradas onde já não moram para receber subsídios a que não têm direito. Ministros que são incompatíveis com pastas que lhes cabiam, secretários de Estado demissionários por outras razões, às vezes, raríssimas razões;

Nas frases agora selecionadas pelo online da SIC, onde não entram fake news, socorro-me desta. É a propósito da polémica sobre as touradas, mas podia ser a propósito de muitos outros temas do ano,

Diz Manuel Alegre:

"É chegada a hora de enfrentar o fanatismo do politicamente correto. Para mim, que sou um velho resistente, cheira a totalitarismo. E não aceito."

Digo o mesmo.

É chegada a hora de enfrentar o politicamente correto, os likes como forma única de intervenção pública e lavagem de consciências, a turba ululante das redes e fazer política para as pessoas.

Ou, então sim, depois vamos, todos queixar-nos, claro, nas redes, que afinal o Diabo chegou: não veio nas contas, no défice, na troika ou no resgate.

Veio devagarinho, pela via da democracia e tornou um país moderado num país extremista;

Deixou vazios ideológicos e orgânicos que foram ocupados pela extrema direita e pela extrema esquerda; trocou o diálogo por violência, a tolerância por ódio, a verdade pela demagogia.

E para os que pensam que não vai acontecer, há demasiados exemplos, e já demasiado próximos.

Há coisas do Diabo, mesmo que o diabo, aparentemente, não tenha vindo...

Resta-nos, como na obra inacabada, o amor.