Opinião

Fui a Las Vegas ver o Futuro normal, e ser traduzido para mandarim

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

Já não é o mundo dos geeks, a fauna humana por estes dias em Las Vegas não tem nada de estranho. Este é o mundo normal em que falamos com máquinas, somos conduzidos por robots, transformamos ar em água de beber. Para o turista chamam mais a atenção os personagens desta cidade de faz de conta, as incontáveis falsas stripers a tiritar de frio para uma selfie por uns trocos, o Elvis que teima em passar por nós esquina sim, esquina não. Las Vegas é um lugar estranho, a CES já não.

A CES é sem dúvida o mais variado e complexo evento de tecnologia. Há de tudo, grandes e pequenos, todas as áreas do que tenha que ver com tecnologia e com consumo. Há telemóveis, mas também há eletrocardiogramas, há automóveis mas também há hambúrgueres.

100% vegetal. Versão 2.0. Satisfaz mas é muito condimentado para algumas pessoas.

100% vegetal. Versão 2.0. Satisfaz mas é muito condimentado para algumas pessoas.

IOT, ou Internet das coisas, inteligência artificial, assistentes virtuais, mobilidade, 5G os temas que seria de esperar dominam e depois aparece em sempre umas surpresas pelo caminho.

Na CES este já é um jogo habitual mas garantem-me que este ano teve actualização para uma versão ainda mais imbatível

Na CES este já é um jogo habitual mas garantem-me que este ano teve actualização para uma versão ainda mais imbatível

Não se vêem propriamente, e com o ruído da feira também dificilmente se ouvem, mas os assistentes pessoais estão presentes em todo o evento. Sobretudo Google e Amazon com o seu Alexa competem pela atenção, competem mesmo.

A Google, que não está a ganhar esta guerra tem até comboios, monocarris que cortam a passagem uns metros acima da estrada, com anúncios do seu assistente. Nos stands as marcas anunciam lado a lado a compatibilidade com um e outro sistema.

A Google anunciou mil milhões de aparelhos que estão ligados ao seu assistente, mas a maior parte destes são telemoveis e o número não é uma indicação do uso real, ao contrário de quando falamos por exemplo das pequenas colunas que são compradas especificamente com esse fim.

Em números a Amazon anunciou que há 100 milhões de aparelhos ligados ao seu Alexa, que permitem desde dar ordens a outros aparelhos como acender as luzes ou ligar o ar condicionado e até contar histórias a criancinhas. É normalmente apresentada como a empresa que lidera mas a Baidu anunciou que tem 200 milhões de aparelhos ligados ao seu programa, é muito, mas o mesmo tempo a empresa chinesa admite que apenas 35 milhões usam de facto as funcionalidades diariamente, o que relativiza aqueles milhões todos.

Nunca presente nestes eventos, e sem gastar um cêntimo de dólar em publicidade a Apple acabou por ter presença em todas as notícias, durante a CES foram anunciados acordos para que conteúdos até agora apenas disponíveis em Mac e iPhones possam ser enviado directamente, e através do seu assistente pessoal Siri, para aparelhos de outras marcas como a Sony a LG ou Samsung.

Não é que quem tivesse uma destas televisões não pudesse ver um filme comprado no iTunes, mas passava muitas vezes pela compra de uma Apple TV um aparelho que ainda ronda os 200 euros. Em Portugal o conteúdo do iTunes é diminuto mas isso é outra história.

Tudo isto contribui para a banalização dos assistentes pessoais em inglês, fazem parte da vida de uns quantos e deixam de fora a enorme maioria dos idiomas, mas é uma questão de tempo.

Uma dessas TV’s poderá ser a nova LG. Já tinha sido mostrada como protótipo e não foi anunciado que vai mesmo estar à venda. Com todo o destaque que tinha e porque de facto é um daqueles objectos mesmo diferentes foi uma das estrelas deste ano. O novo ecrã da gama Signature enrola literalmente sobre si próprio para se esconder no móvel que o suporta.

A LG garante que o sistema aguenta mais do que o que é considerado a vida útil de um destes ecrãs.

A LG garante que o sistema aguenta mais do que o que é considerado a vida útil de um destes ecrãs.

O tema assistentes virtuais é inseparável da IOT, a Internet das coisas, tudo o que possa deve ser ligado à rede. Há uma verdadeira mania dos sensores, sensores de casa, sensores no nosso corpo, sensores nas ruas para a gestão das cidades. E todos os objectos com botões ou comandos remotos devem agora responder a nossa voz através dos assistentes virtuais.

Como exemplo dos milhares que por lá se podiam ver, a francesa Legrand ganhou um dos prémios de inovação da CES deste ano ao apresentar interruptores de parede que, além de manterem a funcionalidade tradicional, têm embutidos microfones e pequenas colunas que permitem perguntar se vai chover ou qual o câmbio do dólar falando para o sistema Alexa no interruptor de parede.

Ainda me vou arrepender de ter escrito isto, mas por enquanto acho de facto ridículo que a moda de ligar os objectos vá ao ponto de já terem feito uma sanita que liga ao sistema de uma casa para que o feliz proprietário possa definir a luz e o som que o objecto deve emitir quando é usado. Para esse privilégio duvidoso pagará sete mil dólares.

Mesmo que queira dar 7 mil dólares tem que esperar uns meses. Ainda não está à venda.

Mesmo que queira dar 7 mil dólares tem que esperar uns meses. Ainda não está à venda.

A Google mostrou assim como quem não quer a coisa o seu assistente a fazer tradução de uma conversa. Nada que me surpreenda depois de ter estado a testar um sistema de videoconferência no stand da Alibaba ( a Amazon chinesa).

Estive em amena cavaqueira com um chinês, eu falei em inglês, ele em mandarim, e no ecrã, além das nossas caras, aparecia o texto do que dizíamos nas duas línguas.

A tradução tinha alguns erros, muito menos do que eu esperaria, e nós próprios conseguimos detectar os problemas e acertar o discurso. O que mais me impressionou é que isto aconteceu com um ritmo que permitia uma conversa perfeitamente normal. Objectivo declarado, vender mais aos ocidentais.

Quem é o entrevistado?

Quem é o entrevistado?

A par das grandes marcas automóveis ocupadas com os seus modelos mais ou menos inteligentes e mais ou menos colectivos para o futuro próximo, a Bosch trouxe à CES o seu conceito para a mobilidade do futuro. Um pequeno autocarro que pode servir, a pedido, para transporte privado ou partilhado, conforme a vontade do cliente. No primeiro caso era mostrado como um autêntico escritório com rodas, elétrico, silencioso e sem condutor.

A ideia é que o mesmo veículo se possa adaptar a diferentes tarefas e funções conforme as necessidades. Interessante observar como a combinação certa de hardware e software transforma uma cabine com rodas num escritório, num veículo inteligente, num transporte seguro e eficiente.

O conceito passava até pela forma de gerir uma frota destes pequenos autocarros. O que é que a Bosch tem que ver com isto? É uma das empresas que vai vender estas soluções, as marcas que conhecemos como marcas de automóveis compram frequentemente não apenas as peças mas o próprio conceito. Na CES os responsáveis ostentavam a vontade de liderar o processo para a mobilidade do futuro.

Um dos conceitos de mobilidade que a Bosch quer vender ao sector automóvel

Um dos conceitos de mobilidade que a Bosch quer vender ao sector automóvel

Uma nota de estranheza para o 5G. Há ainda muita indefinição sobre o que vai ser e como vai ser mas todos os fabricantes gritam presente.

Muitas demonstrações que se apresentam como revolucionárias não passam de serviços que já existem e que quando as redes 5G estiverem de facto a funcionar passarão apenas a ser mais rápidos.

Uma nota de realidade acabou por ser dada quando um Hans Vestberg CEO americana Verizon anunciou um milhão de dólares só para começar a apoiar quem aparecer com ideias que de facto usem o potencial da próxima geração de redes móveis.

Este Electrafly ainda não é um produto está na fase de conseguir investidores, pelo menos atenção teve muita.

Este Electrafly ainda não é um produto está na fase de conseguir investidores, pelo menos atenção teve muita.

Já estiveram mais na moda mas continuam a exercer um estranho fascínio

Já estiveram mais na moda mas continuam a exercer um estranho fascínio

Muitos drones, sendo que este ano há um crescimento impressionante do número de robots submarinos para o consumidor, coisas na casa dos dois mil euros já são acessíveis para muitos dos que se dedicam à sério a desportos náuticos.

Por dois mil euros pode fazer filmagens em HD a 40 metros sem ir lá abaixo.

Nunca tinha bebido água extraída simplesmente do ar. Há vários sistemas de eficiência duvidosa. Uma empresa israelita, a Watergen, mostrou vários aparelhos que podem produzir muitos litros de água só com ar e alguma energia.

O alvo são não apenas as regiões com escassez de água. Querem mesmo substituir as nossas garrafas de água por máquinas situadas em locais estratégicos e em locais de trabalho que estariam sempre a extrair água do ar para as nossas garrafinhas, poupando, água, copos de plásticos, garrafas de plástico e se contarmos com a energia gasta a transportar água de um lado para o outro dizem que também pouparia os muito nesta área.

Na CES tinham até um carro com uma torneira central, ao lado do condutor, que vá produzindo água enquanto conduzimos. Como seria de esperar neste caso a investigação teve raiz militar, para uso pelo exército e agora reverte para onde for necessária. Receberam um prémio da CES na categoria “Tecnologia para um mundo melhor”.

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