Opinião

Sem Legendas

Foi por causa do futebol.
Mas podia ter sido o mau tempo, ou qualquer outro assunto.

Acontece sempre a mesma coisa quando há reportagens lá da minha ilha, no meio do oceano mar.

Lá vêem as piadas do costume sobre o sotaque.
Que não se percebe nada.
Que, dizem, tem de se por legendas porque as pessoas, lá em casa, não vão compreender.

E eu, como sempre, irritada.

Além de que, na minha ilha não se fala ‘açoriano’.
Fala-se portugês com sotaque Micaelense.
Não existe o sotaque ‘açoriano’ porque são 9 ilhas e cada uma tem a sua forma de falar.

Só em S. Miguel se fala com o tal sotaque, que dizem que não se percebe.

As origens estão, provavelmente, relacionadas com os primeiros povoadores da ilha, oriundos do sul português e da Bretanha, em França.
O isolamento fez o resto e criou uma forma, única de falar, muito cerrada e muito característica.

E, como não podia deixar de ser, também há sempre uma referência a Rabo de Peixe como sendo o exemplo, extremo, da tal máxima do ‘aquilo não se percebe’.
Senhores, fala-se assim em toda a ilha.
E, nas outras 8, fala-se com sotaques completamente diferentes e, verdade seja dita, mais fáceis de perceber.

E, quando não se tem sotaque nenhum, como eu, é-se gozado com toda a propriedade.
Os de lá, com quem cresci, dizem-me que estou cheia de mania porque falo à continental.
E eu encaixo, e respondo com um impropério que, mesmo com legendas, só os da ilha poderiam perceber.

Porque, para além do sotaque, há centenas de palavras e expressões típicas que dariam, só por si, para fazer um dicionário.

No entanto, que fique bem claro.
Não é outra língua, nem sequer é um dialeto.

É português.