Opinião

Uma revolução que senta à mesa 10 mil milhões

Murad Sezer

Num planeta com recursos naturais finitos, onde a população humana não para de crescer, a revista científica Lancet criou uma comissão de especialistas para definir uma dieta-padrão saudável e sustentável. Mais do que a dieta em si, que outros estudos já têm apontado como fundamental para a saúde humana e para conter o aquecimento global – com pouca carne e muitos legumes e fruta –, o que retenho é o objetivo de equidade planetária: permitir sentar à mesa os 10 mil milhões que, muito provavelmente, seremos em 2050.

Segundo a Comissão EAT da revista científica Lancet, é preciso fazer uma transformação radical no sistema alimentar global (produção e consumo) para conseguir alimentar 10 mil milhões de pessoas de forma saudável, respeitando ao mesmo tempo os limites do planeta.

O que os cientistas constatam é que a forma como uma parte da população do mundo se alimenta e desperdiça hoje está não só a por em risco a saúde de todos (uns por doenças evitáveis, outros por desnutrição), mas também o equilíbrio ecológico da Terra. E estas duas questões – saúde e ambiente – estão interligadas e são questões centrais no mundo em que vivemos.

O atual sistema de produção intensiva agrava os problemas ambientais existentes (alterações climáticas e perda de biodiversidade) com riscos crescentes para a saúde e qualidade de vida das pessoas.

O relatório da comissão, criada para se debruçar precisamente sobre as questões da alimentação, do Planeta e da saúde, alerta para que se não agirmos, alterando hábitos alimentares, o mundo arrisca-se a não alcançar os objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (que incluem a erradicação da fome e o acesso a saúde de qualidade), nem os objetivos do Acordo de Paris, de contenção do aumento da temperatura média global, causado pelo excesso de emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera.

A dieta planetária defendida pela comissão EAT baseia-se em plantas, com 35% das calorias provenientes de grãos integrais e tuberculos, 500 gramas de vegetais e fruta, e apenas cerca de 14 gramas de carne vermelha por dia.

Quem come bifes com batatas fritas e hambúrgueres, dia sim dia não, pensará que a mudança recomendada exige um esforço hercúleo. Mas esse tipo de alimentação pouco saudável, dizem os especialistas, representa um risco maior de morbidade e mortalidade do que o sexo desprotegido, o álcool, as drogas e o tabaco juntos.

E o que não nos deve passar ao lado é o objetivo universal de que todos os habitantes da Terra tenham acesso a uma alimentação saudável e que o excesso e desperdício de uns não condene à fome ou à míngua os restantes.

Sem justiça no sistema alimentar não perpetuamos apenas os profundos desequilíbrios que existem entre habitantes do mesmo planeta, mas também os conflitos e ameaças à segurança internacional, que advêm dessas desigualdades.

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