Opinião

Racismo à distância por quem o vive de perto

Os Estados Unidos vivem diariamente dramas raciais e racistas. Conheço essa realidade, e vivo com ela, há 35 anos. Há coisas que fazemos e dizemos sem pensar que, noutra pele, não faríamos nem dizíamos. Por isso, consigo perceber que muitas pessoas não tenham compreendido a razão da visita do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa ao Bairro da Jamaica. Mas podiam fazer um esforço.

Há cerca de quatro anos jantava com um grupo de portugueses num popular restaurante em Luanda quando, subitamente, a conversa resvalou para o sempre perigoso tema das conquistas “românticas”. Em voz alta, discutia-se se as angolanas eram “mulheres fáceis”, fadadas para meretrizes e por aí em diante. Não havia na cidade um buraco suficientemente grande para me esconder. Debalde tentei desviar a conversa para outro assunto. Na mesa ao lado, um casal angolano olhava, estarrecido para a nossa mesa, sem se pronunciar. Terminei rapidamente a refeição, pedi desculpa ao casal e saí.

Numa outra ocasião, num resort elegante na Ilha do Mussulo, “falava-se à preto” à mesa, perante empregados angolanos, como se isso fosse uma cortesia para com as pessoas que em Angola falam português com sotaque e linguajar próprios. Não creio que estes portugueses fossem racistas. Mas eram certamente pessoas pouco respeitadoras do outro ser humano. Porque se tivessem o respeito como prioridade, se por momentos tentassem ser menos egocêntricos, ter-lhes-ia ocorrido que estavam a ser mal-educados e trocistas. Neste contexto, ser trocista é humilhar e humilhar não é respeitar.

O facto de não nos apercebermos das consequências dos nossos actos não as elimina. Por serem involuntários, um acto ou comportamento não são necessariamente correctos.

Vem isto a propósito dos incidentes no Bairro da Jamaica. Independentemente do aproveitamento pelos que, à esquerda, sobrevivem explorando, qual Donald Trump, o choque dos temas fracturantes, o vídeo das agressões policiais a alguns negros do bairro era mau. Muito mau. Porque a lei não diz que aos meliantes se dá uma sova e depois se levam para a esquadra. A sova não consta do preceito legal. A sova desigual, a assimetria dos corpulentos agentes contra dois meliantes, teve aquilo a que os americanos chamam “bad optics”.

O problema deste incidente é que há dois ritmos de análise nos dias de hoje: a judicial, deliberada e demorada; e a social, insensata e imediatista. A primeira, aconselha que se aguardem os resultados ao ritmo processual. A segunda, exige bodes expiatórios imediatamente. Mesmo insensata, esta última move paixões, raivas latentes que explodem sem aviso prévio e, daí, as gentes nas ruas, os veículos incendiados, a ameaça de desordem geral. Coletes amarelos em Paris, coletes negros em Lisboa.

Creio que foi isso que moveu o Presidente da República, quando visitou o Bairro da Jamaica. Era preciso por água na fervura onde a fervura existia. Marcelo Rebelo de Sousa, que conheço há mais de 35 anos e de quem gosto, quis aplacar o que lhe pareceu ser um sentido de revolta antes que a revolta se materializasse.

Compreendo, também, a frustração da polícia, cansada de prender meliantes que os juizes das penas suspensas e paninhos quentes deixam sair no dia seguinte para mais do mesmo. Não acredito que os agentes envolvidos nos incidentes da Jamaica fossem animados por intentos racistas. Quando nos anos 1980 tínhamos as rusgas no Casal Ventoso e, mais tarde, a caça aos “mitras” em Chelas, o vigor policial era o mesmo e todos os envolvidos eram brancos. Ainda subsiste a práctica de, quando se apanham os meliantes que se sabe estarem a horas de regressar às ruas e aos maus hábitos, fazer justiça na hora, com uma boa tareia. Não tendo a intenção de suscitar um incidenta racial, criaram essa impressão. Isso não pode acontecer. E não devia acontecer. Não é o que presume o estado de direito.

Mas enquanto problemas graves não se corrigem e legisladores e governantes se mostram mais preocupados em encobrir as suas responsabilidades nas falências corruptas na banca, do que em reformar o sistema de lei, da ordem e da justiça – para que funcione, bem e atempadamente – alguém tem de deitar água na fervura.

Assisti, nos Estados Unidos, ao longo destes últimos 35 anos, a muitos incidentes racistas. E a muitos incidentes totalmente desprovidos de intenção racista. Mas basta que as motivações de um lado sejam mal interpretadas pelo outro para incendiar um rastilho e encher as ruas de “coletes” e violência. Desta vez o Presidente foi o bombeiro de serviço. Talvez os sindicatos das polícias queiram aceitar que deitar água na fervura impede mais tensão e violência... e os ajuda na sua missão. Têm muito mais razões de queixa dos governos que os deixam a pé e sem condições de trabalho. É compreensível que os polícias se sintam acossados, mas também cometeram erros e a acção de Marcelo Rebelo de Sousa, mesmo que possa ser vista como uma crítica, foi pedagógica e atempada.

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