Opinião

Adolfo no palco dos sempre em pé

Artigo de Opinião de Bernardo Ferrão

Basta escrever no Google: “CDS questiona Galp” e percebemos como a ida de Adolfo Mesquita Nunes para a Administração da Galp, mesmo que para um lugar não executivo, condicionaria a atividade do partido. As dúvidas que se instalaram só por si já eram suficientes, a conversa sobre as portas giratórias tornou-se evidente.

Quando escrevi este texto, que agora tive de refazer, ainda não era certa a demissão de Mesquita Nunes mas já era óbvio que a sua imagem sairia beliscada. Afinal Adolfo é igual aos outros. A todos aqueles que saltam da política para os negócios, com escritórios de advogados pelo meio. A perceção foi confirmada.

O Google revela-nos como o CDS enquanto partido da oposição, e bem, tantas vezes tem questionado o Governo e a Galp sobre vários assuntos. Falo-vos dos aumentos dos combustíveis e da respetiva carga fiscal e da eletricidade (a Galp também é fornecedora e distribuidora), dos atrasos nas faturas ou até das viagens dos deputados.

O CDS vai certamente continuar a faze-lo, mas agora, se Adolfo se mantivesse como dirigente no Caldas, Assunção Cristas estaria também a abordar a empresa onde o seu vice-presidente é também administrador. Daqui não podemos concluir que os centristas ficariam mais atados, mas as coisas não seriam iguais. Digam o que disserem, Mesquita Nunes, advogado e ex-secretário de Estado, não foi convidado para a Galp só porque sabe encher uma sala com um bom discurso.

Não sei se pressionado ou não, Adolfo anunciou entretanto que deixa o lugar no partido. É uma saída de peso de quem se tornou num dos mais importantes estrategas de Cristas e um dos que melhor pensa o posicionamento e o caminho que devem ser seguidos para alcançar os objetivos do partido. A vitória do CDS em Lisboa também é dele. A sua consciência pesou mais do que algumas vozes que, no CDS, não viam qualquer problema no ‘move’ profissional do vice.

Houve mesmo quem puxasse do exemplo de Pires de Lima. De facto, o ex-ministro da Economia também andou nos dois mundos mas a diferença é que o grande palco de Pires de Lima sempre foi o das empresas, foi lá que ganhou músculo, só depois vinha o CDS do amigo Paulo Portas. No caso de Adolfo, apesar do músculo que ganhou na advocacia para onde voltou depois do Governo e onde aposta tudo, a política tornou-se no seu core-business.

Adolfo Mesquita Nunes nunca foi um político qualquer. Independentemente da cor partidária que defende, sempre se afirmou por ser diferente no pensamento, na argumentação, na forma como surgiu a representar uma nova geração de políticos.

É uma boa herança de Paulo Portas. Julgo por isso que a sua passagem para a Galp, mesmo que para um lugar não executivo, o enfraquece porque o torna igual aos outros. Dizerem-me que fez o que já muitos fizeram serve de pouco consolo porque o que muitos da sua geração esperavam era que não fosse mais um. Igual aos que andaram e andam, ao mesmo tempo, em demasiados palcos.

Não há nisto qualquer crime ou ilegalidade. Trata-se sobretudo de uma questão política ou, se quiserem, de um olhar mais pessimista. De quem escreve e do próprio que deixou de encontrar na política suficiente atrativo e que olha para o futuro com preocupações. No limite, e se formos bem pragmáticos, podemos sempre concluir que todos precisamos de dinheiro, que todos gostamos de conforto e que os políticos ganham de facto multo mal.

A discussão levar-nos-ia longe porque, de facto, falta um modelo de carreira para quem passa pela política ou por um governo. Acredito na política como missão, mas não há contratos de exclusividade para a vida toda.

Adolfo quis ir para a Galp e para o novo mundo das administrações das empresas, pior será quando e se quiser voltar para a política, aí vindo das empresas. Não podemos deixar de notar

e anotar estas aproximações obviamente perigosas e questionáveis. Adolfo não é o primeiro nem será o último no palco dos sempre em pé.

  • "Plástico nosso de cada dia"
    29:35
  • Brincar ao ar livre como remédio natural
    0:21
  • Como não gastar dinheiro com os números começados por 707
    6:46