Opinião

Três horas, 100 euros e a Luisinha...

Opinião de Pedro Cruz

A frase, aviso já, vai percorrer todo este texto, tantas as vezes que a mãe de Luisinha lhe disse
- Luisinha, anda para aqui


E ela nada, a Luisinha continuou pendurada entre o monitor que anuncia as chegadas do aeroporto e uma barra de metal que impede que os carrinhos se esbarrem contra o pilar...
- Luisinha, anda para aqui
E ela nada.


Dentro do pequeno guiché estava apenas uma funcionária
- Estou aqui sozinha
Repetia ela, baixinho, a cada pessoa que chegava de novo para requerer um passaporte
- Estou aqui sozinha
Repetia a funcionária, repleta de paciência mas cheia de trabalho, às nove da manhã já tinha inscrições que chegassem até às duas e meia da tarde, mas a fila não parava de aumentar.
A funcionária também deve ter ouvido trezentas vezes a mãe.
Mas já respondia em modo automático, fosse qual fosse a pergunta
- Estou cá sozinha


Tirar o passaporte em tempos de simplex não é tão simples como parece.
Primeiro, há dezenas de países que entendem que seis meses antes de acabar a validade, o passaporte já não serve.
Por isso, de um dia para o outro, o cidadão fica desprotegido.
E precisa de tirar o passaporte a correr.
(aviso já que por marcação só em Abril, nuns casos, Maio, noutros e até Junho).
Nas "lojas" dos aeroportos sempre se consegue "de um dia para o outro".


Voltamos à fila que não parava de aumentar, à senhora que já não podia aceitar mais inscrições, à mãe
- Luisinha, anda para aqui


E, enquanto os cidadãos se impacientavam sem saber se, mesmo esperando, ainda conseguiriam pedir o passaporte, a funcionária
- Estou cá sozinha


Ia fazendo, um a um, o passaporte dos tais que se inscreveram às nove da manhã, interrompia para vir dizer que estava sozinha e que não podia aceitar mais inscrições, aproveitava para entregar passaportes a quem só lá foi para os levantar mas que estava na mesma fila, que não parava de aumentar, a Luisinha continuava pendurada entre o monitor das chegadas e a barra de metal que impede os carrinhos de chocarem contra o pilar, e a senhora do SEF, lá dentro, cheia de calma e paciência, estava entre a máquina dos passaportes, o balcão de atendimento a repetir quer não podia aceitar mais inscrições e a dizer
- Quem é para levantar?

e lá entregava mais dois ou três passaportes, mas a fila não parava de crescer e a mãe de Luisinha, encostada ao balcão, à espera que depois de todos os inscritos terem sido atendidos pudesse ser atendida, ia barafustando contra os serviços e dizia
- Luisinha, anda para aqui
Mas a Luisinha nunca foi, continuou na sua vida, ignorou a mãe e fez-nos, a todos, ouvir umas trezentas vezes
- Luisinha, anda para aqui.

Podia continuar nisto mas acho que já perceberam que a Luisinha não foi nunca para junto da mãe e que a funcionária do SEF estava sozinha.
A meio da manhã apareceu uma segunda funcionária.
Fardada.


Eu, a senhora dos passaportes, a mãe da Luisinha e as outras pessoas, as que ainda estavam, na fila que ia crescendo, as 30 e tal que estavam inscritas desde as nove da manhã - e o Francisco e o pai, que também andavam por ali a fazer horas e o Francisco resolveu brincar com o botão de chamar o elevador e todos paravam no piso porque o Francisco resolveu brincar com o botão do elevador - pensámos que a senhora, fardada, acabada de chegar seria uma boa ajuda.


Podia, pelo menos, explicar à fila que já não se aceitavam inscrições, ou ajudar a entregar os passaportes já prontos.
Mas não.
A senhora do SEF, fardada, esteve por ali uns vinte minutos, a meter conversa com a funcionária, mas não moveu uma palha, não deu uma ajuda, não adiantou nada.
Esteve ao telefone, provavelmente a reportar ao chefe o caos no guiché.
Mas, pôr as mãos na massa, nada.
(havia de voltar uma hora depois, mas para fazer a mesma coisa - nada).


Três horas e 100 euros depois, consegui requerer o passaporte.
Vou ter de voltar para o levantar.
Se calhar a funcionária ainda vai estar a repetir
- Estou cá sozinha
E com algum azar, a Luisinha ainda está pendurada no monitor, a fazer de conta que não ouve a mãe:
- Luisinha, anda para aqui!

(nota: a loja do passaporte no aeroporto foi inaugurada por Sua Excelência o Ministro da Administração Interna, Dr. Miguel Macedo)