Opinião

A líder e os cobardes

A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern

Yves Herman

A primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, é a definição de um líder. O contraste com os cobardes do apaziguamento no Parlamento Europeu, ou no Capitólio, não podia ser maior.

É nas horas difíceis que se revelam os grandes líderes. Os cobardes debitam queixumes, inventam desculpas, chutam para canto e atribuem responsabilidades a terceiros. Os líderes enfrentam a situação frontalmente, inspiram, fazem crescer todos à sua volta. Jacinda Ardern é uma líder. O Partido Popular Europeu (PPE) e o Partido Republicano dos Estados Unidos são o contrário. São cobardes.

Esta semana, o PPE suspendeu o Fidesz húngaro, um partido decididamente antidemocrático que apoia um governo autoritário. Chegado ao poder através de eleições democráticas, o Fidesz tratou de iniciar o caminho para o fim da democracia e a sua substituição por uma autocracia. A democracia está doente, mas o PPE, a semanas de eleições europeias, suspendeu, em vez de expulsar, o Fidesz. Tinha a oportunidade de limpar o lixo mas varreu-o para debaixo do tapete.

Hipocritamente, criou uma comissão para fiscalizar o Fidesz e avisar caso este regresse à fidelidade às regras democráticas. Ora, todos sabem que isso não vai acontecer sob a liderança actual. O Fidesz não é, nem será, um partido respeitador da democracia, limitando-se a utilizar o que, nesta, contribuir para a sua solidificação no poder.

Esta situação não é muito diferente de ouvir vozes no PCP sugerindo, de forma igualmente hipócrita e sem a coragem de o dizerem abertamente, que a Coreia do Norte é uma democracia. Para os amigos, tudo. Para os inimigos, nada.

A diferença está em que o PCP finge ser uma organização democrática que nunca foi nem será, enquanto o PPE é uma força democrática que debilita a democracia ao não expurgar o pus húngaro. Ao ignorar que a democracia não vive no Fidesz, o PPE ataca-se a si próprio, aos projectos democráticos da Europa, e abre caminho a mais populismo. Ao decidir que vale tudo para vencer eleições, vende a sua alma ao diabo.

Já os republicanos dos Estados Unidos comportam-se da mesma maneira com Donald Trump. Têm nas mãos o poder para o travar mas não o usam porque isso poderia abrir uma crise no partido e favorecer os democratas. Mais uma vez, vencer a todo o custo é a prioridade. Que não hajam, depois, surpresas, com o aparecimento figuras e organizações partidárias com ainda menos escrúpulos, precipitando todos para o abismo totalitário.

Quando as forças democráticas se aliam com figuras vis e desprezíveis como Orban, Trump e outros com as mesmas tentações, encorajam o aparecimento de mais como eles do mesmo e do lado oposto da barricada. O apaziguamento cobarde nos anos de 1930, na Europa acabou, começou de forma semelhante – ceder para evitar conflito – e acabou muito mal.

Por isso o exemplo de Jacinda Ardner é tão refrescante. Não se preocupou com a imagética da Chefe do Governo neozelandês, com um véu sobre a cabeça a abraçar uma mulher muçulmana. Fez o que a decência humana requer. Em pouco mais de uma semana fez mais do que os EUA em 30 anos para controlar o uso e posse de armas de guerra por civis. Foi a voz da nação, o seu alicerce moral.

Podemos não concordar com todas as medidas e políticas do seu governo, e há muito para discordar, mas na hora da tragédia não fugiu nem desconversou como alguns, em Portugal, depois de Pedrógão. Enfrentou o desastre, ofereceu empatia, propôs soluções de bom senso.

Apesar de ter, também, a sua geringonça com um partido nacionalista à direita, Ardern tomou as medidas necessárias, sem medo. Não mostrou receio de perder o apoio parlamentar e o poder. E se isso vier a acontecer, é preferível perder temporariamente o poder a perder, para sempre, a democracia. Pessoas como Ardern ajudam-nos a manter a fé na democracia, cuja perda será irreparável.

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