Opinião

O Froxas e o SNS

A opinião de Pedro Cruz.

(declaração de intenções: o Froxas é meu amigo)

O Froxas nunca se queixa.

É daqueles tipos que nunca está doente. E, quando está, ri-se;

Aliás, o Froxas ri-se sempre, até nos funerais, é um bem disposto e contagia.

Nunca está de mal com a vida, embora a vida nem sempre tenha sido boa para ele.

Consegue dar a volta a qualquer situação.

Digo isto porque conheço o Froxas há mais de 30 anos e foi sempre assim.

A rir.

Hoje ligou-me.

Pela primeira vez em 30 anos, não achou graça às piadas, não se riu, não fez humor consigo próprio.

O Froxas está há seis dias num hospital público.

Caiu das escadas e partiu o osso do calcanhar.

Há seis dias que o Froxas está para ser operado.

De urgência.

Nos primeiros cinco dias, a operação era de urgência e o Froxas, que é de muito alimento, esteve em jejum à espera.

Durante cinco dias, a cirurgia urgente foi sendo adiada: falta médico, falta enfermeiro, falta anastesista, falta sala, «mete-se» o fim de semana…

Cinco dias.

Todos os dias a cirurgia urgente é adiada.

Ao sexto dia, a cirurgia passou de «urgente» a «programada».

Ficou «programada» para hoje, e o pobre do Froxas acreditou que era hoje, afinal, já nem era urgente, era apenas «programada».

Ele acha, no seu desconhecimento das coisas da medicina, que o osso partido, ao fim de cinco dias, deve estar a colar «no lugar errado».

Não sei se está ou não, mas sei o que significam duas palavras:

- urgente e,

- programada

Mas a cirurgia programada - que primeiro era urgente - apesar de estar programada, acabou por não acontecer.

Porque a anterior demorou mais do que o previsto e, já se sabe, o doutor tem de sair do hospital público para ir, depois, para o privado, por isso a cirurgia do Froxas ainda não foi hoje, apesar de, recordo, estar programada, depois de ter sido urgente.

O Froxas é meu amigo.

Dirão, certamente, que ninguém morre por não ser operado ao osso do calcanhar e, não sabendo eu de ciência, deve ser verdade.

Mas o Froxas anda há seis dias a soro e sem comer (acabam por lhe dar a ração do dia depois de adiarem a cirurgia) e sem ser operado.

Este é o SNS que ele escolheu.

Porque tem seguro de saúde mas entendeu que estava melhor num hospital público.

Quis que fosse assim.

Claro que está arrependido.

Porque os outros senhores que partiram o osso do calcanhar e foram para os privados já há muito que foram operados pelo mesmo médico que devia ter operado o Froxas mas que manda adiar a urgência e o programado porque tem mais que fazer.

Há uma coisa boa nisto tudo: com soro e uma refeição por dia, quando chegar o dia da operação, o Froxas vai estar elegante.

Obrigado ao SNS.

Não trata do pé mas cuida da linha.