Opinião

A guerra dos três dias

Artigo de Opinião de Pedro Cruz

Bastam, afinal, três dias e uma greve de 800 profissionais para parar um país.

Não é a primeira vez que os camionistas encostam à berma e deixam paralisada uma sociedade que depende dos transportes pesados de pessoas e mercadorias – sejam elas quais forem.

Há várias lições a retirar de uma greve convocada por um sindicato não-alinhado e criado há menos de seis meses:

1. A UGT e a CGTP já não controlam o monopólio dos sindicatos de «linha dura», capazes de fazer a diferença num país inteiro (tal como já tinha acontecido com a greve dos enfermeiros)

2. Movimentos legais mas «desenquadrados» vão continuar a surgir e a pressionar governos e patrões; quem tem capacidade de gerar o caos num país, tem sempre margem de negociação ou, melhor, de imposição, por mais justas que sejam as reivindicações;

3. Para situações extremas, medidas extremas – o país dos brandos costumes ainda tem leis, regras e procedimentos herdados de um tempo em que as greves eram «combinadas» com as centrais sindicais e os «serviços mínimos» um acordo de cavalheiros; há cada vez menos espaço para os acordos e para os «cavalheiros».

4. A capacidade de reação das «autoridades» foi lenta; ver um país parar devagarinho - sendo que essa paragem foi, ainda assim, previamente anunciada - não augura nada de bom a um Estado que tem de ser forte quando é preciso e impositivo quando está em causa a vida coletiva de uma sociedade;

5. Um país decente não pode ficar sequestrado por 800 homens, sejam eles motoristas de matérias pesadas, estivadores ou outra qualquer profissão que, com toda a legitimidade, protesta e faz greve. A função do Estado é tratar de todos e garantir que o país funciona;

6. A negociação – ou mediação, como queiram – feita terça e, depois, quarta-feira, pelo governo, poderia ter sido feita entre o dia 1 de Abril (quando foi anunciada a greve) e o dia 15, quando arrancou a paralisação; mais uma vez, o governo reagiu tarde e mal, foi a reboque dos acontecimentos, deixou espalhar o caos e foi incapaz de antecipar os danos.

7. Os movimentos «inorgânicos», repentinos e «radicais» tomarão conta do país. Porque vão percebendo, com exemplos vários, que ser inorgânico, repentista e radical - e ainda por cima ter capacidade de alarme social e de paralisar um país – é um caminho para que as reivindicações que fazem sejam satisfeitas em três dias.

O Estado não pode ser fraco com os fortes e forte com os fracos.

Tem de ser forte quando é preciso e discreto quando só atrapalha; a reflexão não é apenas nem só dos políticos. É de todos.

A Europa tem-nos dado exemplos de como não se está a discutir o essencial. E, à porta de europeias, o primeiro-ministro decide que estas eleições são umas primárias das legislativas.

Pobre serviço à democracia, à Europa e ao debate.

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