Opinião

Greves bandidas

Um artigo de opinião de Luís Costa Ribas

As greves devem servir para pressionar entidades patronais a respeitarem quem trabalha. Mas tornaram-se num instrumento de chantagem sobre os portugueses.

A greve dos motoristas de matérias perigosas exemplifica um novo fenómeno no sindicalismo: ou fazem o que nós queremos ou arrasamos tudo.

Este parece ser o lema de alguns sindicatos com maior poder reivindicativo. Os enfermeiros deixaram milhares de pessoas sem cirurgias. Outra greve deixou doentes oncológicos em pânico. Os professores fizeram greve às avaliações lançando apreensão nos processos de acesso ao ensino superior. Funcionários dos transportes terrestres e aéreos escolhem períodos de feriados ou férias, e convocam greves ora generalizadas, ora apontadas às horas de maior fluxo de utilizadores.

Estas greves têm um denominador comum: visam criar impactos brutais nos utentes e usá-los como reféns.

Não significa isto que se esteja a fazer um juízo generalizado sobre a justiça das reivindicações, até porque são muito variadas: vão desde as muito válidas às venais, passando pelas meramente políticas. Neste caso, parece, até, que os motoristas de matérias perigosas foram deixados ao abandono pela CGTP. As suas reivindicações parecem razoáveis e serão negociadas após uma expectável intervenção de um Governo em pânico.

O juízo que se faz é sobre as tácticas bandidas que prejudicam não só (ou nem tanto) as entidades patronais como milhões de pessoas tratadas como meros peões nos tabuleiros dos outros. Os sindicatos fazem dos restantes portugueses reféns dos seus interesses sectoriais. E o pior, para o público, é a sua taxa de sucesso.

Com os ciclos noticiosos escravizados pelas redes sociais e pelo imediatismo, criam-se rapidamente situações politicamente insustentáveis para os governos com catadupas de notícias alarmistas. Face ao impacto público o Governo e/ou as entidades patronais pressionadas por este cedem e os grevistas veem o problema resolvido e a o sucesso da táctica confirmada. Por isso, será repetida.

O que daqui resulta é uma fortíssima contribuição dos sindicatos para o alargamento do fosso entre portugueses de primeira e portugueses de segunda; entre os portugueses com poder reivindicativo e os portugueses sem poder reivindicativo; entre os portugueses cujos interesses são atendidos e aqueles cujos interesses são ignorados.

As centrais e confederações sindicais não protegem os direitos dos trabalhadores. Protegem os seus interesses sectários e políticos. Portam-se com o mesmo corporativismo dos sectores patronais. No fundo, funcionam como as grandes empresas que dizem combater, dividindo os trabalhadores entre os que tem poder para chantagear e levam tudo... e os que não têm esse poder e não levam nada e continuam a usufruir salários miseráveis, muitas vezes pagos por baixo da mesa, sem descontos, benefícios e regalias. E por vezes sem limite de horas de trabalho.

As associações sindicais devem ser capazes de convocar formas de luta que não tomem o país refém. Se o não fizerem, alguém terá de o fazer por elas.

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