Opinião

Godard consagrado pelas cinematecas

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

A Federação Internacional dos Arquivos de Filmes homenageou Jean-Luc Godard com o seu prémio anual: o trabalho do cineasta para o conhecimento da história do cinema foi uma das razões fundamentais da distinção

Não foi, por certo, um acontecimento que tivesse obtido grande evidência mediática. E, no entanto, em tempos recentes, terá sido uma das cerimónias do mundo do cinema com maior significado histórico e mais comovente ressonância simbólica: a Federação Internacional dos Arquivos de Filmes [FIAF] distinguiu o cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard (88 anos) com o seu prémio anual.

O Prémio FIAF destina-se a celebrar o trabalho de personalidades com contribuições especialmente significativas para o conhecimento da história dos filmes e, em particular, para a preservação do património cinematográfico.

Ingmar Bergman, Martin Scorsese e Christopher Nolan contam-se entre os já distinguidos.

O caso de Godard é tanto mais eloquente quanto grande parte da sua obra das últimas décadas se tem debruçado sobre a memória dos filmes e, através deles, a necessidade de conhecimento das grandes convulsões históricas (muito em particular na Europa, ao longo do século XX).

A sua obra monumental “História(s) do Cinema” (1989-1999) é disso o exemplo modelar, prolongando-se por muitos trabalhos posteriores, incluindo o filme “O Livro de Imagem” que, em 2018, no Festival de Cannes, lhe valeu uma Palma de Ouro especial.

Isto sem esquecer, claro, que a par de François Truffaut e Eric Rohmer, entre outros, ele foi um dos autores emblemáticos da Nova Vaga francesa, na década de 60 assinando filmes marcantes como “Viver a sua Vida”, “Pedro, o Louco” ou “Duas ou Três Coisas sobre Ela” [na imagem que ilustra este texto, podemos vê-lo nas ruas de Paris, durante os acontecimentos de Maio de 68].

Fundada em 1938, a FIAF congrega arquivos de filmes de todo o mundo, muitas vezes completados por importantes bibliotecas especializadas. Essas instituições desenvolvem actividades que vão desde a preservação do património de imagens e sons até ao seu restauro, passando pela exibição de filmes.

Em tempos recentes, um dos temas transversais no interior da FIAF envolve a passagem da clássica película cinematográfica aos suportes digitais, obrigando a repensar os modos tradicionais de arquivo e preservação dos filmes.

Segundo informação oficial de Janeiro deste ano, a federação tem 89 membros activos, provenientes de cerca de sete dezenas de países — a Cinemateca Portuguesa integra a FIAF desde 1956.

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