Opinião

Talvez um dia a polícia vá perceber que não nos pode empurrar para lá da fita

Rui Caria

Rui Caria

Repórter de imagem/ Fotojornalista

Um texto de opinião do repórter Rui Caria

Há muito que deixei de "desabafar" sobre a atualidade nas redes sociais, já que não serve de nada, se quisermos ser sérios.
Mas é difícil calar quando vemos as atrocidades escritas nas redes sociais e em alguns órgãos de comunicação, sobre acontecimentos dramáticos que envolvem gente, pessoas, seres humanos, como os que publicam essas atrocidades. O facto de não estarmos num dado acontecimento devia ser a base para nos calarmos. O silêncio é sempre inteligente.

Quando ontem me desloquei até às Quatro Ribeiras, em reportagem, já sabia que o cenário seria de desolação, e era.


Passaram 26 anos, desde que o jornalismo me escolheu. Já vi quase tudo o que os humanos são capazes de fazer, e o que são capazes de aguentar.

Já fui espancado pela polícia duas vezes, ameaçado quase sempre pelas pessoas que gostam de nos ver a trabalhar para nos poderem ameaçar. Já fui vaiado por trabalhar numa televisão que no dia anterior emitira uma reportagem que não era do agrado das massas; a lista é vasta, como são os anos.

Infelizmente as coisas mudaram muito pouco. As pessoas que gostam de sair de casa para ver acidentes continuam a aparecer com o mesmo objetivo de nada, senão de ver acidentes e ameaçarem os jornalistas.

A polícia já não bate tanto, só empurra, o que já demostra algum cuidado. E nós? Nós, continuamos a lutar para mostrar os factos porque é o nosso dever. Falo de nós, mas não falo de nós todos.


Há muito que o jornalismo fala de dentro do túmulo. Já só lhe existe o nome e a memória.


São poucos os que continuam a tentar fazer bem. É cada vez mais difícil distinguir uma peça jornalística de uma publicação feita por um adolescente no twitter; sobretudo, quando a publicação do adolescente é, acidentalmente, mais rigorosa do que a do órgão de comunicação que tem o dever de gerar confiança, mas, ao contrário, gera revolta.

Ontem aconteceu um acidente grave. Morreram pessoas, outras terão ficado mortas por dentro. Fiz o meu trabalho mesmo sem querer estar ali; por isso, talvez nunca vá entender porque é que há pessoas que saem de casa e se colocam atrás da fita, olhando de longe para o cenário de morte enquanto acendem um cigarro.

Há algo de muito aberrante nesse prazer. Mas vai ser sempre assim, porque sempre foi assim.


Já das autoridades no local esperamos proteção e regulação. É o dever delas. Talvez um dia, quando a polícia nos souber distinguir por entre o mar de telemóveis que filmam diretos para o Facebook, vá perceber que não nos pode empurrar para lá da fita, senão, passamos a ser, cada vez mais, a pessoa que olha, de longe, para o cenário enquanto acende o cigarro.

Somos nós todos, os que vemos e os que fazemos as notícias que, sem querermos, estamos a ajudar a sepultar o jornalismo.

  • Quem são os Hells Angels?
    2:52
  • O preconceito e os receios em torno das doenças mentais
    30:52
  • O caos nos registos
    18:55