Opinião

O estád(i)o da União

Artigo de Opinião de Pedro Cruz

A cada eleição, comentadores e analistas arranjam sempre forma de dizer que estas (eleições) são as mais importantes de sempre. Faz lembrar aqueles jogos de futebol que todos os anos são o jogo da década ou do século.

Digo isto e a comparação não é inocente: em plena campanha para as eleições europeias, que em 2014 tiveram mais de 65 por cento de abstenção, a malta quer é bola.

Neste caso, este ano, foi o Benfica, mas podia ser outro qualquer, para o caso não importa muito.

As audiências televisivas da última semana mostram-nos que entre a bola e as eleições, nem vale a pena ir a jogo.

Sempre que entram as festas, as contratações, os discursos ou os golos… a audiência sobe.

Quando nos alinhamentos é a vez das reportagens da campanha, de imediato, a audiência muda-se para quem estiver a dar bola, ou crime, ou cenas mais ou menos escabrosas.

É o reflexo de uma sociedade que acha a política «uma seca», ou que responde invariavelmente «não percebo nada de política».

Este deveria ser o ano do regresso à política; nas últimas décadas, sobretudo nas quase duas que já leva este século, andámos atrás da economia.

Este tem de ser o tempo da política.

A europa em geral e a União em particular estão ameaçadas por «democracias musculadas», populismos, extremismos e outros movimentos de verbo fácil.

A diluição do chamado «centrão» - que historicamente manteve equilíbrios ideológicos e sociais - e o crescimento das franjas radicais, leva a que a moderação e a convergência estejam a dar lugar a crescentes disputas marginais.

Estaremos, então, menos moderados ou mais desatentos?

O centrão, o grande centrão é, afinal, um mal menor ou um bem maior?

Que é feito das sociedades moderadas do pós-guerra, que permitiram paz, prosperidade e crescimento na europa?

Estamos, portanto, desatentos, desligados, pouco importados, descrentes.

Massificados.

A seguir modas instantâneas, com ânsia de chegar a tudo, de achar que temos «informação» de todo o lado mas daquela como a «chiclete» que, como na música, se mastiga e deita fora.

Mais tarde ou mais cedo havemos de pagar a fatura desta fractura.

Entretanto, enquanto a União corre o risco de se esboroar, mais vale continuar a seguir a festa do campeão, do vencedor da Taça, das contratações de verão, do mercado aberto de jogadores e treinadores e reflectir sobre o VAR e as claques.

Pelo menos, assim, a audiência anda entretida com o entretenimento do futebol e deixa passar quase em branco a campanha, as propostas, os debates, os discursos e, com isso, a reflexão, a discussão política e ideológica, a troca de argumentos, o contraditório.

Mas há vida para além do estádio, do golo, do árbitro e do nosso clube. E é nessa «vida» que decide as nossas vidas.

  • O 12.º episódio do "Polígrafo SIC"
    21:36