Opinião

O CDS pode guardar as fotos de Sócrates na gaveta

Opinião de Ricardo Costa, SIC

Não sei quem aconselhou Nuno Melo a ir para os debates televisivos com fotografias A4 de José Sócrates. Mas quem teve essa ideia não deve ter pensado mais que 5 minutos no assunto. José Sócrates já não pertence à categoria dos assuntos incómodos, está, numa categoria bem diferente, a dos temas arrumados à guarda da justiça, no processo crime mais importante da democracia portuguesa.

Isto é completamente óbvio para qualquer português, exceto para o reduzido grupo que acha que o ex-primeiro-ministro um injustiçado e, pelos vistos, para a direção de campanha do CDS. Os primeiros ainda têm a desculpa da amizade cega, os segundos não têm qualquer desculpa. Usar Sócrates numa campanha é uma total burrice.

O erro é, aliás, muito fácil de explicar. Além de Sócrates estar às mãos da justiça, já não tem qualquer influência direta ou indireta no PS, estando aliás publicamente zangado com a forma como foi tratado pelo partido.

Mais importante, a ligação óbvia de José Sócrates aos temas do enrequecimento ilícito ou da irresponsabilidade das contas públicas não é percecionada pelo eleitorado como um problema do atual PS, que fez do controlo das finanças públicas uma questão central. Ora, se isto é totalmente evidente porque e que o CDS resolveu jogar esta cartada, imprimindo um baralho inteiro com fotos A4 de Sócrates?

Não consigo encontrar nenhuma resposta inteligente para esta pergunta, pela simples razão de que essa resposta não existe. É bem natural que José Sócrates tenha feito o PS perder muitos votos em 2011, por causa das políticas que levaram ao resgate, e mais uns quantos em 2015, pelo descarado caso judicial.

Mas estamos em 2019 e não há o mínimo sinal de que o PS alguma vez tenha querido seguir o rumo do PT no caso Lula, bem pelo contrário. O ex-primeiro-ministro bem se queixa disso, estando, aliás, sempre a lembrar o caso brasileiro. Mas o PS teve a lucidez de não enfiar essa carapuça, ao contrário do PT (que reduziu a sua agenda política num ao caso Lula da Silva), afastando-se de José Sócrates desde o primeiro momento.

José Sócrates será seguramente uma das figuras mais odiadas da política portuguesa. Mas não dá votos a ninguém. Nem a Nuno Melo, como era evidente.

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