Opinião

My name is Biden, Joe Biden

Luís Costa Ribas

Luís Costa Ribas

Impressões da América

Será Joe Biden o 007 que vai derrubar o vilão da política americana mais parecido com Goldfinger? A opinião de Luís Costa Ribas.

No mundo dos filmes de James Bond, o lendário agente 007, há uma vasta casta de vilões mas Auric Goldfinger, é o que mais se parece com Donald Trump.

Sem coragem, ou dotes físicos ou intelectuais, Goldfinger é um personagem obcecado com o ouro e dinheiro, apenas interessado em enriquecer mais, custe o que custar, a quem custar. Acaba vencido e destruído.

Ao contrário de 007, o candidato democrata Joe Biden (ex-vice-presidente de Barack Obama e senador durante quatro décadas) não tem um Aston Martin carregado de truques para vencer a corrida. Tem, antes de mais, de sobreviver às primárias democratas, num palco em que se acotovelam duas dúzias de candidatos, levando o partido a tentar reduzir os nomes no placard.

Quase nenhum oferece uma combinação vencedora de liderança ideológica e experiência política com capacidade de mobilizar o vasto, mas muito fragmentado, eleitorado anti-Trump. É verdade que Trump nunca teve o apoio da maioria dos americanos. O sistema eleitoral permitiu-lhe ser eleito com menos votos do que Hillary Clinton e, ainda hoje, não consegue o apoio de 50% dos americanos.

Mas não precisa do apoio da maioria para vencer. Basta desmotivar o voto adversário. E é isso que Trump e o Partido Republicano farão em 2020, desde a criação de obstáculos ao voto universal, à propaganda mentirosa das chamadas fake news nas redes sociais que inclui a criação de desavenças no campo oposto. A táctica está a ser usada, em todo o mundo, por forçaspopulistas apostadas em destruir a democracia.

Para a desmotivação do eleitorado democrata podem contribuir, também, as 24 candidaturas às primárias, se os apoiantes dos derrotados se abstiverem na eleição final. Aconteceu no passado, e poderá voltar a acontecer: mais de 25% dos apoiantes de Bernie Sanders não votaram em Hillary Clinton, em 2016.

É possível que uma vitória, nas primárias, do democrata moderado Joe Biden, lhe custe votos dosprogressistas que não o consideram “suficientemente puro”. A ala esquerdista do Partido Democrático, com os seus testes ideológicos sectários, pode ajudar a eleger Trump, segundo alguns analistas.

Joe Biden lidera todas as sondagens das primárias democratas com mais do dobro das intenções de voto em Sanders, e todas as sondagens feitas até ao momento preveem a sua vitória sobre Trump. Mas a procissão ainda vai no adro e muito pode, e vai, mudar. Apesar do seu avanço nas primárias democratas, Biden tem de encontrar forma de congregar mais de 25% de eleitores do seu partido cujos votos estão dispersos por duas dezenas de candidatos menos conhecidos e que estão à sua esquerda.

Se o não fizer e estes ficarem em cada no dia das eleições, Trump pode regressar à Casa Branca.

Nota sobre as eleições europeias: Os resultados das eleições de domingo revelam que a direita toda junta obteve percentagem de votos inferior à do Partido Socialista. O PSD é pouco mais que o dobro do BE. O CDS encolheu para menos que o PCP. O Aliança não teve tempo para se afirmar. Os outros são irrelevantes. Mau para a direita e mau para a democracia.

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