Opinião

Deixem os mortos em paz

Jonas Savimbi

AP Iamges

Opinião de Pedro Cruz, SIC.

Não sou muito versado em política Angolana, mas fui querendo saber umas coisas ao longo de décadas.

As lutas pós-independência sempre me deixaram curioso desde muito pequeno.

Talvez porque visse aquelas duplas de homens (Savimbi/Eduardo dos Santos, Samora/Afonso Dhlakama ) como inimigos dentro dos seus próprios países e isso apaixonava-me.

Achava eu - aprendi muito mais tarde que além de guerras de poder e de dinheiro - que aqueles homens se moviam por causas, por visões diferentes, numa luta de vida ou morte por aquilo em que acreditavam.

De alguma forma eles foram, para mim, enquanto criança e adolescente, heróis de um filme que era real, com pessoas reais.

Quando os via na televisão, de fardas militares e armas à cintura, nem pareciam os mesmos que apareciam, de vez em quando, de fato de cerimónia, Savimbi de gola ‘à Savimbi’, Eduardo dos Santos impecável nos seus fatos europeus, a apertarem as mãos um do outro, nem sempre com sorrisos.

Savimbi intrigava-me.

Tinha aquele corpo enorme e assustador, a barba pesada, mas um olhar tranquilo, quase doce, muito vivo, como se fosse um miúdo irrequieto a pensar no que haveria de fazer a seguir.

Lembro-me onde estava e com quem estava no dia em que chegou a notícia de que Savimbi tinha morrido. Sido morto.

A chamada não foi para mim, mas para quem estava ao meu lado.

Naquele momento, foi como se uma parte da minha infância e juventude e, depois mais a sério, uma parte de mim jornalista tivesse de ter feito um luto. Estava vento e frio nesse dia de Fevereiro. Aquele homem enorme, que seguia pela televisão desde pequeno, que achava imbatível, afinal era tão mortal como os outros todos.

Foi estranho.

Lembro-me de, nessa noite, ter visto a imagem degradante do corpo dele, morto, desarmado, com os boxers azuis e brancos à vista, sem qualquer dignidade, cuidado, zelo ou respeito.

Estava ali para ser visto e fotografado, para que o mundo em geral e os angolanos em particular não tivessem dúvidas de que estava mesmo morto e de que era mesmo ele.

Ainda que já tivesse visto muito, aquilo tirou-me o sono.

Hoje, 17 anos depois, Angola ainda não está em paz com Savimbi.

A novela da transladação dos restos mortais é bacoca, indigente, insultuosa e, sobretudo, dolorosa para os familiares e os mais próximos.

Devolvam-lhe a dignidade que não souberam manter na morte.

E deixem Savimbi em paz, tanto tempo depois.

P.S. – Este texto não trata de política, crueldade, guerra civil nem nada do que foi a história de Angola no pós-independência. Não é a favor de uns contra outros nem nada disso. Não escolhe heróis nem vilões. É, apenas e só, uma memória.

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