Opinião

Os propagandistas, sempre de serviço

Opinião de José Gomes Ferreira.

Durante três anos e meio, António Costa e Pedro Marques andaram a dizer aos portugueses que a culpa da degradação dos transportes ferroviários era do Governo anterior porque tinha desinvestido completamente no setor.

Durante dois anos e meio, António Costa e Pedro Marques andaram constantemente a fazer promessas aos portugueses sobre o que iria ser "o maior investimento na ferrovia do último século".

Mas na verdade, quase nada aconteceu. De repente, um pede desculpa e o outro diz que agora é que vai ser. Vêm aí eleições.

As promessas do ministro do Equipamento sobre "o maior investimento na ferrovia do último século" começaram no final de 2016, quando começou a dar entrevistas (nomeadamente à SIC) sobre as inúmeras obras que ia lançar neste setor.

Tantas críticas ao governo anterior e tantas promessas de investimento futuro, insistentemente repetidas, foram como a água macia em pedra dura. Acabaram por ficar no ouvido e na memória.

Quem não tem de enfrentar diariamente o calvário dos transportes públicos em Portugal, até achou que o Governo estava a fazer alguma coisa. Mas para os utentes, o calvário transformou-se num inferno permanente, agravado pelos cortes de preços e pelo alargamento da utilização dos passes sociais (bem decididos, mas sem nenhuma preparação prévia de infraestruturas e de material circulante).

Chegados a meados de 2019, facilmente verificamos que o doce embalo em que o Governo nos entreteve, é apenas isso: propaganda para nos entreter.

Das centenas de quilómetros de nova ferrovia prometida, nem às dezenas, os troços em construção chegam a atingir; do novo material circulante, só há notícia de atrasos nos concursos; da reparação do velho equipamento existente, multiplicam-se as notícias de falta de pessoal; do material ainda circulante, a regra é - supressões; do pessoal ao serviço, repetem-se as notícias de greves. Tanta garantia de que a austeridade ia acabar haveria de dar nisto: se a crise já acabou, porque é que os trabalhadores não hão-de reclamar por todos os meios aquilo a que julgam ter direito? A austeridade, essa, agora passou para os utentes dos transportes públicos: ou ficam em terra ou lutam entre si por alguns centímetros quadrados dentro das latas de sardinha ainda circulantes.

Agora, as supressões de comboios na linha de Sintra são diárias, as velhas composições da linha de Cascais fazem lembrar a América Latina, as linhas da Azambuja e do Norte seguem o princípio dos trópicos, o comboio parte quando parte, chega quando chega.

Perante tamanha evidência de descalabro, na semana passada António Costa encheu-se de compaixão dos portugueses e veio dizer que, "fora do âmbito legislativo há um conjunto de responsabilidades que não podemos deixar de assumir como prioritárias, dando respostas a um conjunto de serviços cujo funcionamento deficiente não é aceitável. Temos de agir de forma a corrigir, seja nos transportes públicos, seja no Serviço Nacional de Saúde, seja quanto à prestação de serviços básicos como a emissão de cartões de cidadão e passaportes".

Esta declaração foi feita na quinta-feira à noite, perante a Comissão Política Nacional do Partido Socialista.

Logo no dia seguinte, sexta de manhã, no debate na Assembleia da República sobre a grave situação dos transportes públicos em Portugal, convocado a pedido do Bloco de Esquerda, o novo Ministro das Infraestruturas e da Habitação apresentou um "pedido de desculpas às pessoas cujo dia-a-dia é afetado pelas supressões nos transportes". Pedro Nuno Santos garantiu que o Governo está a fazer um "plano (que) pretende, antes de mais, atuar sobre o curto prazo, isto é, travar a degradação de material circulante através do aumento da capacidade de resposta oficinal da empresa e do recrutamento de trabalhadores para o efeito".

Será que ouvimos bem? A culpa da falta de investimento na ferrovia deixou de ser do Governo anterior? Este Governo teve três anos e meio para programar investimentos do Estado na ferrovia, mas não o pôde fazer por causa do Governo anterior? Mas agora já pode? porque vêm aí eleições? E com jeitinho os portugueses até vão achar que desta vez é que é?...

Durante três anos e meio, António Costa e Pedro Marques foram os propagandistas de serviço no setor dos transportes públicos. Agora, o segundo foi substituido por Pedro Nuno Santos. A dupla de propagandistas do Governo para a pasta dos transportes públicos mantém-se com o mesmo grau de desfaçatez.

A oposição PSD, CDS-PP, ainda atordoada com a profecia de Marcelo Rebelo de Sousa sobre a "crise da direita", (deliberadamente anunciada para lhe justificar e facilitar a recandidadura ao cargo de Presidente da República), desgasta-se em angústias e recriminações mútuas e internas.

Não percebe Rui Rio nem Assunção Cristas que a boa oposição se faz mostrando claramente as culpas de quem governa o que mal é governado?

Onde está a iniciativa de pedir aos quadros e simpatizantes do PSD e do CDS, que trabalham nas empresas públicas de transportes e nos respetivos ministérios, documentos sobre a real situação dessas empresas, sobre os planos de investimento ou a falta deles, sobre os erros operacionais, as fragilidades financeiras?

Estarão os dirigentes do centro-direita em Portugal à espera que sejam mais uma vez os jornalistas a fazer esse trabalho? Para logo a seguir virem criticar as redações por não os tratarem bem e não lhes darem o devido destaque?

António Costa e Mário Centeno souberam continuar e até acelerar o decisivo trabalho de redução do défice das contas do Estado que tinha sido começado em 2011. Não estão a ser propagandistas quando dizem que conseguiram fazer o que nunca tinha sido conseguido em democracia: mesmo com as ajudas aos bancos, o défice de 2018 foi praticamente nulo. Nunca me cansarei de lhes dar os parabéns pela melhor garantia de combater à especulação financeira quando as crises aparecem - ter as contas da casa arrumadas.

No investimento público, a propaganda e a desfaçatez têm sido a prática do Governo. O PSD e o CDS não percebem que não basta dizer no Parlamento, aos gritos, que este Governo não investiu. Têm a obrigação democrática de mostar em pormenor onde é que o Governo falhou e porquê.

Sim, o PSD e o CDS fizeram o erro crasso de abrir a porta à contagem de todo o tempo de serviço das carreiras congeladas dos professores, arriscando rebentar com os próximos orçamentos do Estado. Fariam melhor em pedir desculpa e, a partir de agora, agarrar as verdadeiras causas que são de todos os portugueses.

  • Saiba quais são os medicamentos que contêm ranitidina
    0:53