Opinião

Uma teoria e o seu contrário

Opinião de Pedro Cruz, SIC

Uma teoria e o seu contrário

(como a técnica dos pareceres jurídicos…)

Há uma crise à direita ou no regime?

(pelos vistos não há uma crise à esquerda)

Rio tem dito há muito que a crise é de regime.

Na verdade, ninguém pode dizer, agora, que Rio usou esta expressão para responder a Marcelo.

Para o líder do PSD «o regime» há muito que precisa de reforma, a começar pela justiça, o seu cavalo de batalha.

A crise é, portanto, à direita e… no regime.

À direita, porque os resultados das europeias colocam PSD e CDS com mínimos históricos;

A coligação que há quatro anos ganhou as eleições no pós-troika perdeu, entretanto, mais de dez pontos percentuais.

O eleitorado confia agora no PS e na sua geringonça. Mas, mais do que isso, Rio, como líder «natural» da oposição, não conseguiu convencer os sociais-democratas, primeiro, e o eleitorado flutuante que decide quem governa, depois, que é alternativa a Costa.

Não é.

Não tem sido ou, pelo menos, não o tem mostrado.

A crise na direita parece-me circunstancial: tal como durante Cavaco o PS andou reduzido aos mínimos históricos, e durante Sócrates o PSD triturou líderes, nesta altura é a vez do PSD passar pela travessia de um deserto do qual só sairá se três factores decisivos se conjugarem:

- Quando Costa começar a perder a confiança dos eleitores

- Se o líder do PSD for capaz de captar primeiro, a atenção e depois, a confiança de quem vota

- Se o PSD tiver um programa eleitoral robusto, focado, relevante e conseguir passar essa mensagem através da atenção, confiança e carisma do líder.

Mas também há uma crise no regime.

Esta, infelizmente, mais estrutural e menos conjuntural.

Porque, e aqui entra o título, ou precisamos de uma classe política de elite, bem preparada, intelectualmente honesta e competente – farto-me de ouvir referências às bancadas parlamentares de «antigamente» em comparação com as de «hoje» - ou cabem «todos» no «regime» e tendencialmente as elites ficam fora da política e temos a representatividade nas mãos de caciques, carreiristas, oportunistas e gente-que-não-sabe-fazer-mais-nada-porque-nunca-teve-uma-profissão.

É preciso fazer a reflexão antes de qualquer reforma.

Pensar o que deve ser a nossa construção democrática e representativa; o que queremos para o país; que prioridades devemos estabelecer, não para um ano, ou quatro anos, mas para várias décadas; que educação, saúde, justiça, segurança social, polícias, desporto, ambiente queremos ter e como lá chegar;

Como combater a corrupção, a fraude e evasão fiscal, o compadrio, a cunha, o amiguismo, o planeamento para um ciclo eleitoral e não para um futuro.

Portanto, há crise no regime.

Há novas gerações que não sabem o que foi a ditadura ou Abril de 74, nem querem saber.

Vivemos ainda num período pós-revolução, que na história não valerá mais do que umas páginas.

Mas o legado que temos obrigação de deixar, depois de 45 anos de democracia, não é este presente que hoje temos.

Construir um país melhor é a nossa obrigação, através de quem nos representa.