Opinião

LG V40 ThinQ. A inteligência acabou com a magia

Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

Opinião de Lourenço Medeiros.

Lourenço Medeiros

Sempre gostei muito deste calendário sempre visível, é útil e dá-lhe um ar distinto.

Eu não queria nada escrever isto, e só com este início já revelei boa parte do que tenho que dizer. Anos e anos a testar os melhores telefones do mundo e, entre os Android, tive sempre um lamento com os LG, é que sempre mereceram muito mais do que o público, certa imprensa, e sobretudo as vendas, lhes davam.

Primeiro deixei-me conquistar por designs arrojados, diferentes, que marcavam verdadeiramente. Depois, os telefones de todas as marcas passaram a ser todos iguais, os vidrinhos com um mínimo de botões de lado, eventualmente um à frente. E os LG continuaram a inovar, vou esquecer coisas com certeza, mas entre as que me agradaram está a aposta clara na grande angular, muitas fotos fiz eu em Los Angeles aos passantes distraídos.

Depois o kit do fotógrafo, ou seja, as três lentes, a grande angular, a normal e a pequena teleobjectiva para retrato, o básico de qualquer aspirante a profissional. A especialização que fazia que mantivessem sempre comandos manuais para tudo e mais alguma coisa, as baterias que até muito tarde continuávamos a poder tirar, os materiais, tudo contribuía para que os LG fossem uma espécie de paixão quase secreta. Para além da parte objetiva tinham aquele “não sei quê” que fazia com que trouxesse um na mochila mesmo que já não tivesse cartão SIM para ele.

Note-se que grande parte das inovações que se tornaram moda, como as que referi acima, começaram muitas vezes na LG e seguiram depois para aparelhos muito mais vendidos, alimentando discussões sobre o telefone mais inovador que nunca incluíam estes coreanos de “segunda linha”, pelo menos em termos de vendas.

Porém, como já deixei adivinhar, a magia não dura sempre. O Lg v40 ThinQ infelizmente deixou-me um amargo de boca, a começar logo na abertura da caixa. Confesso que nem sei se começou comigo ou se com o jornalista que o usou antes de mim.

Lourenço Medeiros

Se comprar um V40, compre a capa de proteção antes de abrir a caixa.

A verdade é que raras vezes vi um telefone a riscar-se desta forma. Alguns aparelhos recentes vêm com uma capa de gel básica como acessório na caixa, este V40 devia trazer o gel previamente colado. É uma desgraça para os riscos. Pede riscos, vai à procura deles, e se não houver, inventa. Como é que se fabrica um aparelho com uma camada assim e não se coloca uma proteção em cima, não sei, mas foi o que aconteceu.

Tenho pena de admitir que este tipo de primeira impressão me pode ter influenciado e até um outro factor que já vou explicar, o facto é que é um bom telefone. claro que é, mas nada mais. Foi-se a paixão dos modelos anteriores. Não vi nada de novo, também não se consegue estar sempre a inventar. A novidade devia passar por ser supostamente o primeiro telefone com 5 câmaras, oportunidade perdida. De um lado as três habituais, excelente combinação, mas com problemas com as macros que nunca esperei, do outro, duas câmaras para selfies não me parece que melhorem o que uma já fazia bem nos modelos anteriores.

Para a fotografia fiquei entusiasmado quando ouvi falar no triplo disparo, achei que era, esta sim, a novidade do LG V40. Como tem as três câmaras achei que fazia logo três fotos perfeitinhas com três enquadramentos. Não é bem assim. Faz três disparos em sequência e com uma pausa razoável entre eles. Parece tecnologia ultrapassada.

Se, por exemplo, estiver a fotografar o cão, tenho que centrar muito bem o focinho, e esperar pelos três disparos. Resultado, pelo menos duas fotos são mais ou menos aleatórias, porque não se consegue calcular o enquadramento e porque entretanto o bicho se mexeu. Pior, além de ficar com três imagens tipicamente mal enquadradas, fico com um vídeo que o sistema faz automaticamente, com um mix rápido entre as três fotos, que é esteticamente desagradável e demasiado rápido para fazer qualquer sentido. Lá se foi a inovação.

Lourenço Medeiros

Nas miniaturas, imagens que não orgulhariam nenhuma máquina fotográfica, nem mesmo um telemóvel, do vídeo nem se fala.

Boa parte do ThinQ fica no tentar mostrar inteligência, etiquetas em que os aparelhos tentam dizer-nos que sabem o que estão a ver. De resto, até para focar uma simples flor me vi por vezes aflito… coisas.

Lourenço Medeiros

Não há inteligência que lhe valha, fazer macros é mesmo difícil

Vi bugs a mais. Para que é que o aparelho tem que estar o tempo todo a recordar-me que tem espaço para um segundo SIM se eu só lá coloquei um cartão? Já sei, pronto, não preciso de mais…

O som está entre os melhores, sem dúvida, e o ecrã também, mas tal como parece ser moda por defeito, fica-se em HD e não na resolução máxima para poupar bateria. Se quiser mais, já sabe que paga o preço. A gravação vídeo chega aos 4K a 60 frames mas neste caso limitado a 6 minutos de cada vez. Não dispensa de todo um estabilizador.

Alguns detalhes. Tem um botão dedicado ao Google Assistant, que é uma boa ideia mas pouco útil em Portugal, por enquanto. Fiquei aborrecido por ter perdido os infravermelhos, mas muitos poucos os têm, é uma coisa minha, telefone com infravermelhos ganha 10 pontos na minha consideração. Para os puristas mantêm o jack 3,5 para auscultadores que está a tornar-se uma raridade.

Falta aquela outra coisa que me influenciou. Na grande feira de Barcelona, o Mobile World Congress, a LG mostrou tentativas de inovação que infelizmente também podem ter contribuído para este meu estado de espírito. Uma tentativa de comando por gestos à distância do telemóvel que mais parecia uma piada saída de uma comédia dos irmãos Marx, e boas ideias, claramente mal desenvolvidas, como o segundo ecrã sem software que mostrasse a sua utilidade, parecem revelar algum desespero. Como estas coisas são cíclicas, espero poder rapidamente retirar tudo o que aqui disse, com um qualquer modelo que traga de novo o prazer que sempre tive com os LG. E volto a sublinhar (desde que tenha uma capa) é um ótimo telefone, só que é tão ótimo como os outros.

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