Opinião

Mas não aprendemos nada...

Artigo de opinião de José Gomes Ferreira.

O FMI diz que a dívida pública dos Estados Unidos está num caminho insustentável. As taxas de juro da dívida americana de curto prazo ultrapassaram as de longo prazo, o que é prenúncio de uma crise. Os analistas e especuladores bolsistas americanos pedem à FED mais dinheiro mais barato, isto é, ainda mais dívida. Portugal descansa à beira da praia e diverte-se à espera de eleições.

Nove horas da manhã em Ekaterinburg, Região dos Urais, Federação Russa. À espera do início da Final Internacional do Global Management Challange, uma organização internacional da portuguesa SDG - Sociedade de Desenvolvimento da Gestão, há décadas a exportar um incentivador de competências pelo mundo fora.

Das locais, televisões, nada se percebe, indecifráveis os kras, os iins e os ovs;

Das internacionais, em frase de rodapé no ecrã, a Bloomberg prevê que “Lagarde (will be) in a tough spot”, que terá uma tarefa muito difícil pela frente, agora que se prepara para a presidência do BCE;

E que nos Estados Unidos, a curva de rendimento (para os compradores) dos títulos de dívida pública se inverteu, os investidores já exigem juros mais altos para comprar os de curto prazo que os de longo prazo.

Estranho tempo este, a aparente calma antes da tempestade, com prenúncio claro: sempre que a curva de redimento da dívida pública americana se inverteu, dentro de um ano e meio a dois anos aquele país mergulhou - e obrigou o mundo a mergulhar – numa crise financeira.

O mais certo é ser no final de 2020, princípios do ano seguinte.

Outro indicador avançado, a produção industrial americana está em valores tão baixos que não se viam há muitos trimestres; voou a confiança dos consumidores, ficou o receio dos produtores de continuar a produzir para stocks sem venda futura, abrandou o ritmo das máquinas, muitas pararam mesmo...

Colérico, um comendador Bloomberg chama estúpida à política de austeridade europeia, pergunta se é isso que a FED, o banco central ou a Reserva Federal norte-americana, quer para a União; e porque é que a FED não está já a cortar os juros do financiamento aos bancos, aos mercados financeiros e à economia em geral.

12 anos depois, a mesma ilusão?

A partir de 2007, à brutal crise queda de confiança financeira e económica que teve início numa contaminação com o tóxico vírus dos produtos financeiros insustentáveis e provocou uma infeção generalizada dos mercados americano, europeu e mundial, respondeu a FED com a compra massiva de créditos de risco dos bancos, títulos de dívida de empresas e obrigações do Tesouro dos EUA, bem como uma descida das taxas de juro praticamente para zero. O balanço da FED, que não ultrapassava um bilião (trillion) de euros de ativos, vai agora em mais de 4,5 biliões. 3,5 biliões de dólares a mais no sistema, criados pelo banco central da economia ainda mais poderosa do mundo, a partir do nada. Os juros do financiamento aos bancos e à economia, esses, foram cortados para zero.

Deste lado do Atlântico, respondeu a Alemanha de Angela Merkel à mesma crise com a austeridade no corte dos défices do estado e na redução dos desequilíbrios externos dos bancos, empresas e famílias. Nalguns países do Euro, a começar pela Grécia e por Portugal, os défices gémeos, público e externo, tinham andado acima dos 10 por cento do PIB durante muitos anos, gerando mosntruosos stocks de dívida pública e privada.

Só havia um caminho: cortar a parte da economia de ficção (que só era gerada com recurso a nova dívida) e começar a reduzir o stock acumulado de dívida dos Estados, sobretudo na periferia europeia.

Claro que este corte acelerado da parte insuflada e insustentável da economia europeia provocou falências, desemprego e mais falências, em ciclo vicioso, o que levou à brilhante conclusão política de que a auteridade era recessiva e por isso não devia ter sido seguida – como se houvesse alternativa!

Assim viveu a Europa do Euro até 2012 com BCE, o Banco Central Europeu, também a baixar juros mas a recusar-se a comprar dívida pública direta aos estados em mais dificuldades. Com a Grécia, a Irlanda, Portugal e a Espanha (disfarçadamente, neste caso) a receber pacotes de ajuda com duras condições associadas.

E foi só depois de estes pacotes de austeridade estarem em plena aplicação que a senhora Merkel, através da representação de peso do Bundesbank no BCE, autorizou Mário Draghi a dizer as palavras mágicas: “Within our mandate, the ECB is ready to do whatever it takes to preserve the Euro. And believe me, it will be enough!” ("Durante o nosso mandato, o BCE está preparado para fazer o que for preciso de forma a preservar o Euro. E acreditem em mim, será suficiente!").

Pela primeira vez o BCE admitia que estava pronto para comprar diretamente títulos de dívida pública dos estados em dificuldades. Mas nunca precisou de o chegar a fazer.

Ao aumento do ritmo de financiamento aos bancos a taxas zero, com recebimento de títulos de dívida pública como colateral, o BCE somou o recebimento de títulos de dívida de grandes empresas na mesma condição de garantias de mais empréstimos.

12 anos depois, tal como o balanço da FED, também o balanço do BCE aumentou em mais de três biliões de euros.

Tal como no outro lado do Atlântico, também a Europa do Euro assegurou crescimento económico e redução da taxa de desemprego.

A partir dos Estados Unidos da América, a injeção massiva de dinheiro novo da FED no sistema financeiro provocou uma subida continuada dos mercados de capitais, provocou bolhas de especulação imobiliária e novas euforias com ações, obrigações e produtos estruturados um pouco por todo o mundo.

Na Europa do Euro, a expansão do balanço da FED também provocou algumas euforias imobiliárias e bolsistas, mas os fundamentais das economias dos países mais frágeis foram corrigidos. Até na Grécia, a economia voltou o crescimento e o desemprego foi reduzido.

Os défices públicos e externos bem como as dívidas públicas dos países mais endividados baixaram substancialmente na sequência da aplicação dos referidos pacotes de austeridade.

Em Portugal, a dupla Costa – Centeno virou o livro da austeridade de uma para outra página, isto é, continuou a fazê-la por outras vias. Basta verificar o resultado da falta de investimento nos serviços públicos e o aumento dos impostos sobre as casas, combustíveis e automóveis.

O novo governo da Itália ainda ensaiou algumas canções de rebeldia grega, tal como o governo português no primeiro semestre de 2016, mas já começou a meter a viola no saco...

E entretanto nos Estados Unidos?

Não é preciso recorrer a analistas laureados para perceber o que se passou, basta ler o último relatório do FMI para sentir um arrepio de vento encrespado que anuncia nova tempestade:

Despite the positive macroeconomic outcomes, the benefits from this decade-long expansion have not been shared as widely as they could. Average life expectancy is falling (…because of drug consumption), income and wealth polarization have increased, poverty has fallen but remains higher than in other advanced economies, and social mobility has steadily eroded.

("Apesar dos resultados macroeconómicos positivos, os benefícios deste alargamento não foram partilhados tão amplamente como poderiam ter sido. A esperança média de vida está a cair (... por causa do consumo de droga), a polarização da riqueza aumentou, os níveis de pobreza diminuíram mas continuam mais elevados que noutras economias desenvolvidas, e a mobilidade social corroeu-se continuamente.)

In addition, a number of medium-term risks are growing.

(Além disso, o número de riscos a médio-prazo está a aumentar.)

The financial system appears healthy but vulnerabilities in leveraged corporates and, potentially, in the nonbank system are elevated by historical standards. An abrupt reversal of the recent supportive financial market conditions or a deepening of ongoing trade disputes represent material risks to the U.S. economy, with concomitant negative outward spillovers.

(O sistema financeiro apresenta-se saudável mas as vulnerabilidades empresariais e, potencialmente, no sistema não-bancário são elevadas, de acordo com os padrões históricos. Uma abrupta inversão das recentes condições de apoio ao financiamento do mercado ou um aprofundamento das disputas atuais representam riscos materiais para a economia dos E.U.A")

The U.S. public debt-to-GDP ratio is on an unsustainable path and is expected to continue rising throughout the medium-term, as aging related spending rises.”

Repetindo, em bom português: “a dívida pública americana está num caminho insustentável”!

Se esta frase de um relatório oficial do FMI tivesse sido escrita sobre Portugal ou a Itália, já estaríamos de novo sob especulação desenfreada dos mercados. É sobre os Estados Unidos da América.

Mas a imprensa anglo-saxónica, quase completamente enfeudada aos interesses do sistema financeiro da City e de Wall Street, não quis nem quer saber deste relatório do FMI sobre os EUA.

Quando uma nova crise apertar, os jornalistas e analistas daquela matriz vão outra vez arranjar algum bode expiatório nalgum pequeno país europeu para nele concentrarem todas as culpas, como fizeram nos últimos anos com o arco de países periféricos da Grécia à Irlanda.

Claro que em Portugal, ninguém discute este relatório do FMI sobre os EUA nem o péssimo presságio da inversão da curva de rendimentos da dívida americana.

É verão, a praia está boa e vêm aí eleições.

Os funcionários públicos vão ser aumentados e continuar a aumentar em número.

Os carros elétricos (que têm de ser todos importados) são subsidiados na sua compra em milhares de euros, agravando-se novamente as já negativas contas externas;

O ministro do Ambiente decreta alegremente o fim dos carros a gasóleo - que são produzidos nas fábricas de Palmela e Mangualde, mas isso é um detalhe sem importância.

O seu secretário de Estado da Energia, João Galamba, anuncia um enorme e imprudente reforço de potência nas energias renováveis, com garantia de entrada prioritária na rede, criando ainda mais pressão para o aumento de subsídios na restante capacidade instalada, enquanto os empresários pagam a eletricidade 35% mais cara que os colegas italianos.

Quando a crise chegar, os analistas, jornalistas, intelectuais e políticos oportunistas portugueses vão de novo gritar contra Bruxelas e Frankfurt, exigindo mais estímulos monetários em coro com os seus amigos das bolsas americanas.

Realmente, o sistema financeiro prefere quem empurra os estados, as empresas e as familias para as suas garras em vez dos que os afastam da sua voracidade.

Pobres jovens de hoje, será deles a agravada dívida de amanhã.

Obrigado Angela Merkel, grande líder europeia.