Opinião

A reinvenção de Leonardo DiCaprio

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Com mais de duas décadas de carreira, Leonardo DiCaprio continua a ser uma das figuras emblemáticas do universo de estrelas de Hollywood: o seu sucesso nunca dependeu da encarnação de super-heróis.

Um dos grandes filmes deste Verão será, sem dúvida, Era uma Vez em Hollywood, de Quentin Tarantino (nas salas portuguesas a 15 de Agosto).

Além dos excelentes Brad Pitt e Margot Robbie, nele vamos reencontrar Leonardo DiCaprio, não menos talentoso, a confirmar a singularidade do seu talento, e também da sua carreira, no interior da máquina de Hollywood. Essa singularidade é assunto de um sugestivo perfil do actor, assinado por Tatiana Siegel, publicado no site da revista “The Hollywood Reporter”.

“A sua marca é a excelência”, diz o título, citando palavras de Tom Rothman, director de produção da Sony (que integra a Columbia Pictures), enquanto o subtítulo o define como “a derradeira estrela de cinema de Hollywood”.

Poderemos até considerar que o rótulo esquece outros nomes de apelo universal... Tom Cruise? Meryl Streep? Clint Eastwood? Mas não é uma banal classificação por pontos que está em causa. Afinal de contas, tudo passa pela espantosa pluralidade do seu trajecto: DiCaprio é figura simbólica de sucessos que vão de “Titanic” (1997) a “The Revenant: o Renascido” (2015), mas também o subtil actor de composição que começou muito cedo, apenas com 19 anos, a destacar-se em títulos como “A Vida deste Rapaz” ou “Gilbert Grape” (ambos de 1993).

Como sublinha o citado artigo, DiCaprio consegue a proeza de se manter na linha da frente de Hollywood (logo, do cinema mundial) sem nunca ter interpretado um super-herói, seja ele um vigilante urbano ou um aventureiro de outras galáxias.

Será que, um dia destes, ainda o vamos ver num desses contextos?... Talvez. Não se trata de lançar “suspeitas” sobre as opções seja de quem for. O certo é que DiCaprio se distingue por uma metódica capacidade de reinvenção que está longe de depender dos formatos dominantes na produção dos grandes estúdios.

Para nos ficarmos por um momento modelar das suas opções, lembremos o ano de 2008 em que refez o par de “Titanic” (com Kate Winslet) nesse filme prodigioso que é “Revolutionary Road” [foto], sob a direcção de Sam Mendes. E não se tratou de repetir “Titanic”... Adaptado do romance homónimo de Richard Yates, “Revolutionary Road” apresenta-se como uma narrativa melodramática em tudo e por tudo ligada ao mais depurado classicismo, a provar que o presente do cinema se faz também de uma relação criativa com as mais variadas heranças.

Entretanto, na agenda de DiCaprio, com provável lançamento em 2020, surge “Killers of the Flower Moon”, adaptação do livro de David Grann sobre o massacre de membros da tribo Osage na década de 1920. Depois deverá interpretar a personagem de Theodore Roosevelt, 26º Presidente dos EUA, em “Roosevelt”. Na realização de ambos os filmes estará um cineasta que já o dirigiu em cinco longas-metragens, de “Gangs de Nova Iorque” (2002) a “O Lobo de Wall Street” (2013): Martin Scorsese.