Opinião

O «laranjas»

Opinião de Pedro Cruz, SIC

Uma das minhas primeiras experiências enquanto repórter em momentos de grande tensão foi no segundo lustro da década de 90.

Os camionistas espanhóis estavam de «huelga» e durante mais de uma semana bloquearam estradas, e impediram a circulação de pesados na fronteira do País Basco.

Foi nessa altura que conheci «o laranjas».

O «laranjas» só queria chegar a casa. Os camiões, portugueses e de toda a Europa, estavam bloqueados na fronteira, parques cheios, filas a perder de vista junto à autoestrada, gente sem ter que comer nem que beber e os espanhóis não desarmavam.

Ninguém passava. E quem tentava furar o bloqueio tinha pouca sorte. Pneus furados, espancamentos com bastões e barras de ferro, carros particulares dos grevistas atirados para a frente de camiões que fingiam abrandar diante do piquete e, depois, tentavam acelerar. Corria mal.

Não sei quantos dias depois, uma coluna de oito camionistas portugueses, com a nossa habitual esperteza saloia e jeito para o desenrascanço, conseguiu furar por umas estradas secundárias, dar umas voltas por dentro de localidades e encontrou um acesso para a autoestrada. A ideia era irmos sem parar até Coimbra, onde morava o «laranjas».

Nessa viagem, nessa reportagem, fiquei a conhecer como vivem e trabalham os camionistas. Ganham pouco, conduzem muito, dormem nos camiões, cozinham a própria comida, são gente quase sempre sozinha com os seus pensamentos horas sem fim, em estradas sem fim.

Há uma ética profissional do rigor e do cumprimento da missão. Carregar a tempo, descarregar a tempo, cumprir o plano estabelecido, sempre preocupados com a carga. Se for perecível, qualquer acidente, bloqueio ou algo que os faça desviar da rota torna-se um problema.

O «laranjas» -

- «chamam-me assim porque estou sempre a comer laranjas»,

o «laranjas» só queria chegar a casa e ver a filha, à época, adolescente.

Via pouco a filha, só aos fins de semana e nem sempre.

Quando estava em Portugal saída cedo e chegava tarde.

Trabalhava para manter a casa – a mulher era operária – e para dar «uma vida melhor» à filha.

Por esses dias, estava radiante – tinha conseguido comprar «um piano» para a miúda. (na verdade era um órgão, mas para «o laranjas», tendo teclas era um piano e tinha sido caro o suficiente para merecer o estatuto de piano).

Esta história não tem conclusão nem nenhuma moral, a não ser a de que o «laranjas» é um motorista decente, preocupado, cumpridor, escrupuloso e que vivia praticamente sozinho dentro de um camião.

Entrados em Portugal, por Vilar Formoso, depois de não sei quantas horas seguidas de viagem só com o objetivo de sair de Espanha, respirámos fundo e seguimos. A ideia era ir até Coimbra. Sem parar. Ele queria ver a filha.

Fizemos «a descida da Guarda», era inverno, estrada gelada, geada, frio, ele só queria chegar a casa mas… uns 20 quilómetros antes já não aguentava mais.

Parámos na berma.

Onde calhou. A luz da manhã acabou com a resistência dele.

Ele – e eu, mas para mim não era grave – não conseguia manter os olhos abertos.

Dormimos ambos, sentados, uma bom par de horas, na cabine do camião.

Haveríamos de chegar a Coimbra (só) à hora do almoço.

O «laranjas» lá disse mais umas piadas, comeu uma laranja e foi ver a filha.

E o «piano». Ela tinha uma «música» nova e ele estava desejoso de a ouvir.